segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

IMORTALIDADE E CRENÇA

as frases soltas, soltam-se…
só sabemos tê-las escrito
porque…
elas já não nos pertencem
nelas…
vamos esculpindo poesia,
esse mais sublime achado
duma consciência humana
procurando matéria onde
os deuses se revelam
para os podermos amar
com uma adoração devida
ao amor incondicional
para com tudo que nos dá
vida, imortalidade e crença!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Revertério

nunca me levem a sério
não digo nada que presta
sou um revertério
ser ao contrário
sem nenhum mistério
medíocre como qualquer média
mediano igual um hemisfério

nunca
nunca

me levem a sério
no fundo dessa mina
no raso dessa rima
rio
sem minérios.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011


Quero escrever um poema de sangue
destes que me arrancam de mim
que me acordam na noite

Quero escrever um poema
que liberte meus olhos
e me faça mais vivo

Quero escrever um poema de sangue
destes que arrebatam as gentes
que azucrinam ouvidos moucos

Quero exaurir o poema
suá-lo por meus poros
pari-lo 

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O colecionador




Uma liberdade
na fotografia
de outra solidão.

foto: Felipe Marques e João Samam

domingo, 27 de novembro de 2011

nem sempre seremos sempre

entre(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)
(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)entre
(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)entre
entre(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)entre(estranhos)
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sete Tempos


Manda-me mais sonhos
ainda tenho muito sono
é cedo para camisa e gravata
os anjos rondam minha cama
e me arrumam as cobertas

Ferva-me mais água
o café, deixa que meço
é cedo para o banho quente
o aroma inunda a casa
e pede janelas alertas

Esquenta-me mais os ladrilhos
ainda visto macia flanela
é cedo para a porta e fresta
os sonhos inda persistem
fogem das horas certas

Banha-me de doce perfume
ainda de que breve escuma
é cedo para o baile e festa
o lenho que queima e aquece
trepida em faíscas dispersas

Arruma-me por sobre o leito
a roupa que o sol secou
é cedo para o pente em riste
o torpor que cai e esvanece
deixa por sombras discretas

Alinha-me sobre o peito
o pão que ainda existe
É cedo para a faca e corte
O leite de ubre e porte
escorreu por valas abertas

Lustra-me o couro pisado
ainda é pouco o brilho
já se faz tarde, ao que viestes
o corpo cálido que a lua velou
deita eterno em pedras concretas...

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

com você


marcharia pelo Sudão,
pelo Iraque e a Palestina...

como os sonhos não ultrapassam
o vagão da esquina

segue este poema minguado
combinado a cigarro e cafeína


e a poesia se (des)fez
num estalar de dedos

vagar de olhos...



O mesmo título de um poema de Konstantinos Kaváfis

(e um plágio confesso, evidentemente)
Behemoth e Leviathan - tela de William Blake
 Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.

Quilômetros a serem devorados
e o ar já se torna irrespirável –
um bafo antediluviano
lambendo a pele do campo.

A caminho, calcinando a paisagem,
vão comendo a pata dos cavalos –
mera ilusão para a fome que carregam
sobre o lombo de animais elétricos.

Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.

Distâncias a serem consumidas
e o chão já se comporta mal –
a terra, cortada pela frieira,
expõe a carne de raízes retorcidas.

Em seus rastros, rios nauseados
vomitam sobre o próprio corpo –
peixes abortados à flor da água
oferecem as entranhas às moscas.

Vencidas as montanhas
eles rumam à cidade.

2
E não merecemos nada
além de sermos assassinados.




*do livro Comerciais de Metralhadora

domingo, 20 de novembro de 2011

museu

as primeiras lembranças de são paulo
desembarcaram na estação da luz
a antiga rodoviária apinhada de imigrantes

eu temporário viajante com olhar adolescente
impressionado com as ruas e edificações
processando pelo o avesso
das referências históricas

construindo emocionalmente distante
futuro imprevisível
antevendo uma difícil estrada
perdendo a esperança na humanidade

rever a estação da luz
desembarcando do pesadelo férreo
retornando a oníricas paragens
no túnel de uma viagem sem volta.

Flávio Machado

sábado, 19 de novembro de 2011

Entrelinhas, entrepernas

Escondi uma chave por debaixo da renda
me surpreenda!
E entre.

Amor de primeira grandeza



Quando a vida parecia escurecer
Num infinito vale estranho
Vem teus olhos me reerguer
Vitalizando outra vez meus sonhos

Se a brandura que há nos encantos
De teus gestos a me levantar
Certamente, junto ao meu pranto
Toda mágoa foi-se a evolar

Pois, que agora, só há alegria
E aqueles dias já não vêm mais
Tu és doce, pura melodia
És canção em meus festivais

És a luz que me ilumina a vida
Esperança a rasgar as manhãs
Seus “bom-dias” curaram feridas
Doces beijos de aldebarã

Agradeço sua companhia
A me encher o coração de festa
Fazes destes meus melhores dias
E o amor em ti, a poesia confessa.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Depois

Dedilhei canções
Escondi tufões
Neguei perdões
Evitei senões

E nessas pegadas
ainda fincadas
em meu caminho,
está o desalinho
de todas as cores
e até dos sabores
que desistimos
de viver juntos.

O tempo que corre
e escorre feito água,
não ameniza a mágoa,
não maquia a falta,
e não te exclui da pauta
dos meus planos,
hoje banhados
em tantos enganos.

Nem a frase mais certa
estancou a ferida, ainda aberta.
Nem o beijo mais quente
saciou esse querer, demente.
Nem o gemido, feito à dois
abrandou a dor, do depois.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

poeminha antes de dormir

talvez arriscar apenas letras
digitá-las
[
vez que escrevê-las à mão
caligraficamente
               desenhadas
ou apressada
         mente desdenhadas
segundo alguns
é inconcebível no século XXI
                                        ]
na tentativa de
            ao fim
vê-las travestidas de poema
       fátua fantasia
de quem prefere a poesia
ao popular rivotril



Márcia Maia

Noite Campesina

"Starry Night" (Vicent Van Gogh, 1889)

Era uma daquelas noites frias, mas de pouco sono.

O casaco sobre o corpo bastava para mantê-lo aquecido, e o vinho na mão fazia seus pensamentos transgredirem enquanto ia e vinha da varanda ao pasto do quintal que se misturava no horizonte ao das demais colinas.


Entrava,
servia mais vinho,
se aquecia junto ao fogo,
afagava o cachorro,
e voltava para a rua,

com vapor a sair pela boca,
os dedos a entorpecer pelo vento,
o corpo a encolher por entre os braços,
a vista a vagar por entre o céu absurdamente estrelado,


e os campos escuros a esconder passados,
memórias,

e amores.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Antes de ir ao baile

Vejo, nos cacos do espelho,
vestígios das pétalas de narciso.

Tudo me parece intenso:
o ranger das pernas da cadeira,
o aroma do café amargo,
as roupas coloridas no varal...
Meus sentidos se confundem.

Poucas folhas me restam nesse outono solitário.

As mãos trêmulas seguram o retrato,
lágrimas, que se perdem no labirinto de rugas,
afogam-me de saudade
nessas paredes que me cercam.

Reminiscências inebriam, atordoam.
Quem dera a existência fosse eterna
ou que déssemos juntos o adeus.

És anjo e faço-me Ícaro.
Deixo nas palavras meu silêncio,
meu grito mudo,
e na gélida espera faço-me cinzas,
aguardando o reencontro
para dançarmos a última valsa

Isaac Ruy

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Menstruação




Eu tenho sido o nada
O marasmo
A derrota
Tudo o que deprime
Denigre
Corrói


E tenho sido a contradição
O ciúme
A mentira
Tudo o que inverte
Engana
Destrói


Eu tenho sido o descaso
O medo
A perda
Tudo o que atrapalha
Retorna
Atrasa

E tenho sido a navalha
O açoite
A farpa
Tudo o que corta
Sangra
Vaza

O meu coração menstrua...
Neste modess cheio de rima!

Pois eu quero ser a gestação
O verbo
A inspiração
Tudo o que expressa
Renova
Ensina

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

UM BLOG EM BUSCA DE UM CUIDADOR

Queridos,
primeiramente quero me desculpar pela ausência.
Muitos de vocês me mandaram emails e pedidos para pequenas modificações em seus perfis.
Outros me enviaram emails pedindo para integrar o blog.
Nenhum de vocês foi atendido.
Tenho certeza que alguns, até, ficaram bravos comigo.
Não fiquem.
Minha vida profissional tomou um rumo inesperado nos últimos meses e não tenho tido tempo e nem cabeça para cuidar do nosso Poema Dia.
Portanto, para evitar que novos poetas fiquem descontentes com a "administração" do blog, aviso que o Poema Dia será cancelado no dia 1º de Dezembro caso ninguém se prontifique a "administrá-lo" como ele merece.
Infelizmente não posso mais fazê-lo.
Até lá, as publicações de poemas estarão suspensas.
Assim, poderemos debater a questão, se ela for do interesse de vocês.
Beijos e abraços

Barone



beco do mundo

arte: rafael godoy


um dia senti que aquele era o lugar
um beco com casas velhas e malcheirosas
que abria o seu sorriso para o mundo
um beco cujo cheiro de café
misturava-se ao cheiro das moças
que acabavam de ser possuídas

o Beco da Lua
era o nome escrito com letras exóticas
em uma placa iluminada
diferente do próprio lugar

o beco do mundo
em que cabiam
Terezas e Raimundos
Martas e Aparecidas
Antônios e Josés

eram a alma do beco
a música a lua o quintal
a terra a lama a chuva
as paixões os temporais

às vezes quando a lua
insistia em iluminar
viam-se rostos cansados e aflitos
olhos opacos e vazios
fantasmas pálidos passivos

era o beco maldito
da miséria e do pecado
da luxúria e do abrigo
dos sonhos e dos perdidos
dos gatos e dos vadios
dos poetas e dos mendigos
dos bêbados e dos drogados
dos felizes e dos atirados
dos doutores e dos iletrados
dos caçadores e dos bandidos
das mulheres sem seus homens
dos sedentos de carinho

era o beco do mundo
que sorria timidamente
para o outro lado da cidade
em busca de outros delírios
em busca de novos fantasmas


(Um dia tive um bar, era o Beco da Lua,
numa tarde chuvosa destruíram o beco e construíram um edifício de luxo no lugar.Dizem que até hoje muitos fantasmas da cidade rondam por ali procurando um abrigo)


ti.no




As vezes
a gente se atrapalha
[lamenta, tudo dizendo]
e chama de destino
a vida que não é muito boa
mas,
tem um destino
enorme
numa mania
de ser feliz.

Tem um sorriso
gigante
te achando
numa criança...



E vc, nem imagina,
sonhando com propagandas.


ti.no
s. m. 1. Juízo natural; instinto. 2. Sentido, atenção. 3. Tato. 4. Circunspeção, discrição.
 5. Facilidade de andar às escuras. 6. Conhecimento, idéia.
Pesquei a imagem na net

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

 
 
Compensado
ROGERIO SANTOS

para alguns sou uma porta
mas sempre mantenho a postura
as vezes me abro demais
tenho ferrugem nas dobradiças
mas é comum que me feche
quando é preciso me tranco
e fico feliz quando lembram
de uma demão de verniz
um mimo que deixa refeita
minha autêntica cara-de-pau

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dedicatória

(imagem:Netinho Maia)

Ao falso príncipe, ser incorpóreo,
semi - existente, quase lendário.

Ao imprevisto eclipse
que fingiu ser cúmplice
quando era adversário
e me corrompeu a sensatez
aos poucos.

Ao monstro agreste
que me obrigou a escolher um lado,
esquerdo, direito,
o que importa agora?

Invariávelmente era o lado errado.

Logo eu que sempre fui a Suíça,
virei tirana, doida varrida,
uma desvairada.

Fiz guerras civis, afrontei deuses,
vociferei e comprei brigas.

A ele, muito obrigada.

INGINCAGINHAZINHA



Todo dia
meus dias teimam em perder exatos 07 segundos na poeira das saudades.

Minha memória desnutrida e meu olhar de não olhar nada
ainda cismam de aparecer mais e mais vezes.

Uma nostalgia absurda toma conta do que sou
enquanto não vejo coração nem alma.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O samba das ninfetas



O samba das ninfetas



1.
Chegando como ninfas de boutique,
dão toque, piscadelas para mim.
É lógico, sorri, disse que sim,
podiam se sentar, não é, Caíque!

Um drinque de enquadrar, o do mais chique,
fiquei animadinho, porque vim
a fim de uma conquista que, no fim,
seria duplicada por meu pique.

Convido para um, pô!, particular,
depois de mais dez drinques e porções
de finos acepipes, sou brilhante.

Pileque, riso solto, vai rolar
no rolo compressor das emoções
a noite de espetáculo ululante.


2.
Amigos conversando pelo Skype.
Desejo de você, que se dá bem,
desejo sua sorte, que eu também
mereço umas meninas desse naipe,

me diga direitinho qual o mapa
das taras que há na rota de seu trem,
das minas que se dão ao seu harém,
quem são as beduínas do meu chapa.

Amigo, ou nem me diga, que eu invejo...
Mas como que essas vacas vão pro brejo?!
Revele seus segredos, por favor!

Não minta, não se omita de um detalhe,
imploro que a memória não lhe falhe,
me fale sem o gelo, com fervor!


3.
Silente, está na vez da consciência,
da voz que tonitrua em afasia,
dizer o que de fato, em sua essência,
aquele bate-papo fantasia.
O cara teve as duas no cafofo,
se achando o sedutor, o garanhão,
tomaram mais um copo, mas o fofo
não foi nem para o quarto, foi ao chão.
Depois que despertou, algumas horas,
deu conta de que o encanto de titio
não banca ninfetinhas, mas “senhoras”,
um par de meretrizes infantil:
.....foi pego pela boca, o tagarela,
.....no golpe “Boa noite, Cinderela!”

***