domingo, 6 de novembro de 2011

Ruas & Ritos

2.


no banco da praça
três gerações enfileiradas
no tempo
:
para o neto
o tempo não existe
:
para o filho
o tempo insiste
:
para o avô
o tempo passou.

s.olivio

sábado, 5 de novembro de 2011

SONS COM(O) SOM

poder ser música

a voz do mar no búzio é eco
nas voltas do ouvido
numa espiral
polida
até deixar
uma impressão
limpa até ao osso oco

até ao osso oco

duma flauta que viva andou
num corpo onde foi
talvez perna
com
carne e músculos
antes de poder ser música!

sons com o som

dou-me a este cuidado
feito da maior atenção
com que procuro sons
no som que ecoa vivo
– interior imaginado!
(onde o osso mora
vivendo na perna)

RÉQUIEM PARA MEU PAI

Fotógrafo selecionado para o 27º Salão Arte ParáO salão é um dos mais representativos do Brasil.


[Orquídea Selvagem]


I - O tempo, Pai,
esse foge [tragicamente] da vida
num saudar de lágrimas talhadas.
Céu a céu
eu tenho te caçado
e só descansarei
quando eu puder te ver
nos aposentos ilógicos onde perdura
a lógica.


II - Com esse réquien, Pai,
o que mais quero
é dar-te um beijo.
Um beijo que descreva
a pretensão de voltar a te encontrar.
Um beijo que revigore a confiança
de jamais te deslembrar.
Um beijo que ilumine
a idéia de revê-lo novamente nalgum lugar.
Um beijo que crucifique
o sono que te levou para longe:
e não tão longe que eu não possa suportar
todo esperançoso.


III - O tempo, Pai,
esse caminha [irreversivelmente] para morte
num abraçar de metáforas retalhadas.
Voo a voo
eu tenho posto diante de ti [oh, metafisicista!]
palavras com frequências bennyanas:
Musgos com edemas beatniks
e rastros reversíveis de mim
− desses que coabitam e adolescem
ao período que copulam
apenas expiações.


IV - A tua falta, Pai,
é a consumação de cada baque,
é a germinação de cada sutileza,
é o silêncio obsequioso
de cada lastro estelar,
é a valentia maquinal do orvalho
que deságua na velocidade da lágrima,
é a ejaculação, Pai,
da colheita rala;
o fugir veloz do antes-cio
que nas mãos espalmadas
fez-se um pilar do estio.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Insulina

suspiro
gelatina
baba de moça
romeu e julieta
nem é preciso ser poeta
pra saber
que a dialética
sempre foi mais doce

que a diabética.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

ORAÇÃO DE GRATIDÃO - SYLVIA BEIRUTE

























ORAÇÃO DE GRATIDÃO


há toda uma gratidão em aceitar o universo.
todas as pequenas coisas formam uma grande coisa.
há um parentesco desconhecido entre todo o conhecido.
o meu mundo tem ligação directa aos deuses.
há uma força da natureza que age na raiz das constelações.
há um erro que me pensa a fim de me construir.
há uma maneira de aproximar e que me dá todas as matérias.
e todas as matérias são feitas de paz, luz e bons espíritos.
há um compromisso e uma responsabilidade de mim para mim.
o meu dia é a minha caneta, o meu papel.
e no final do dia o universo requer um pensamento
que absorve palavras absolutamente inteligentes
e que o resumem na noite brilhante.
esse pensamento é a devolução do dia em forma
de energia para o sonho seguinte, o dia seguinte,
um novo passo, um novo começo.
há uma renovação constante em mim
na maneira de me dar e de me devolver.

Sylvia Beirute

inédito

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Waka Winter & Sonnet 33³


Nossos corpos cobertos 
pelas folhas secas, 
em movimentos estalados.

__________________________________________________


Democracias ditadoras.
Amigo, o caminho
esta nas alturas
sem ninho.


Meu carinho
às suas criaturas,
mortes e vidas douras. 
Arquitectando algo sozinho.


Tudo ao ar.
Perdedor
 de amor.


Nadar
no mar,
salvador.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

soneto I

Tenho descrito o que desconheço,

Desde o começo até o fim.

Nem só no deserto tem areia

Nos meus olhos há areia também.


Dunas acumulo na retina,

Retidas de meu sonho enquanto durmo.

Duas âmbulas são ampulheta,

Trêmulas Punhetas de meu sumo.


Meus olhos desertos de areia

Comportam o Deserto que eu não sei.

A presença nula de sua origem


No meu avesso está além.

Tenho descrito o que desconheço,

Desde o começo até o fim.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O sono dos justos



Dorme criança, o teu sono brando
tens o sono que é dos justos
dorme que o futuro é incerto
sabes o coração aberto
desde que nasceste, até quando
lhe virão perversos sustos...

Dorme criança, o teu sonho alegre
que o sono é longo, mas a vida é breve
deixa, criança, o teu peito aberto
tem o coração sempre esperto
pois, por enquanto és quente
como, d'onde viestes, era o ventre...

Sonha criança, o teu sonho certo
de um porvir lúcido e contente
teu olhar pequeno, ainda é perto
pois és nada mais, tênue doce semente...

Dorme criança, o teu sono é casto
qual a pluma que te aquece e cobre
que o sonho é brilhante e nobre
d'um colorido perene e vasto
que se guarda seguro em alabastro...

Dorme criança, teu sono quietinho
inda o dia vem tímido e lento
recolhe-te por hora, em teu ninho
protege-te do implacável vento
dorme e não ouças o meu lamento...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lua plana




e de repente surgiu
um sentimento
que não diria o nome
muito menos saberia
explicar

a lua plaina aqui
eu é que ando fora de órbita...


hercília fernandes



*Arte localizada no blog Brisa Poética,
sem indicação de autoria.

Evocação inútil

Foto: John Sexton


Ó menino que fui
dono de uma infância sabor novalgina
sofrendo delírios por doses excessivas
de xarope para o pigarro e a tosse! –
infantil viagem sob o sol
                        dos trópicos, onde te perdi?

Ó fotocópia do pai
imprudente criatura
amassando com o calo dos pés
os caramujos da esquistossomose:
educado naturalmente por um brejo
povoado por destemidos vermes
que vida era aquela
onde a felicidade se escondia
no pequeno peixe que resistia
                em meio às fezes e ao detergente
                expelidos pelos intestinos da civilização?

Ó minúsculo sonhador
que escapou do coice de cavalos humanizados
pelas placas de trânsito
            e a convivência com as rádios AM –
que motivo havia para se ser feliz
nas axilas daquela cidade
que produzia mangas
           e goiabas melhores do que homens?

Ó incansável infante
que o tempo mastigou com tuas engrenagens
até torná-lo meu antepassado
te procuro tremendo de medo
                     das guerras televisionadas
                                  em horário nobre;
dos vazamentos radioativos
discutidos nas mesas de bar

que estupidez geográfica te levava
a crer que a tua casa seria o próximo alvo?

Ó ignorante de si mesmo
te procuro mijando sobre as flores do jardim
num dia esquecido por todos
por não haver algo de novo nele –
que risos você riu nessas tardes
por nada que valesse a pena
                                     ou merecesse apreço?

Ó curioso moleque
interessado na decomposição dos ratos
na fratura exposta, no fogo nas petroquímicas
me encontro em ti
no olhar     no passo     na voz

e retorno em seguida
            para a merda da vida que será tua. 



* do livro comerciais de metralhadora

domingo, 23 de outubro de 2011

Meninice



era tempo de criança
de cantiga e roda dança
de canjica e mariola
de bola no pé de moleque

beijinho de salada mista
no chão pista de gude
pião e banho de açude
passeio de trem aos domingos

boneca de pano e casinha
o jogo de amarelinha
o vento a subir a pipa
o sopro a girar cata-vento

tantos anos se passaram
e passado nem parece
meninice é travessura
de quem se desobedece




Publicado em 12 de outubro de 2011 no Doce de Lira.
Escrito a partir de roteiro.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

(en)

trocamos as tampas das privadas
me olho no espelho com cabelo cortado e barba falhada
e acho engraçado o fato de estar parecendo com tom zé
claro se emagrecer uns vinte e poucos quilo

lirismo é tesouro escondido incógnito
perde –se muito tempo analisando forma e conteúdo
sem usar a transpiração no trabalho diário

operário assumido transcrevo todas as influências
todos os imputs informativos
de antes de nascer até o presente momento
de cordelistas ao hip hop periférico

na disputa de improvisos de rimas saio perdendo
a prática prosaica de versos sem métrica
inviabiliza a troca de desafios
não me situo em nenhuma escola
não permito aplicação de ditames regrados

caminho tentando alguma sensibilidade
esbarrando em exageros de verbos
ou em literatices assumidas
arremedo de insana erudição
arrebatada de construir na maior cara de pau
textos de absurdos

romper com a claridade obscura dos guetos
entronizar uma maneira de fazer sem identidade
querendo enturmar com a aceitação geral
minoritária encastelada em conceitos de caderno b
pronto para ser debatido em discussões filosóficas
servindo de base para teses descobridoras de essências falsificadas

quebrar todo esse discurso encerrando com o ponto final.


Flávio Machado

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A Era dos Sonhos


E chegado ao fim a era do medo
Todos os soldados voltarão aos seus lares
Pois, se encerram todos os combates
Todas as raças se abraçam irmanadas
Em praças, ruas, shoppings e bares
Não haverá espaços privados
Nem placas a proibir a passagem
Somente uma grande comunhão
Onde todos pertencem a um estado
De coletiva pulsação

Todos os rios revigorados. A vida
Novamente a crescer nas matas,
Frondosas árvores se espalhando
Floridas em serras vastas
Todas as pessoas resgatando a cultura
Aprofundando conhecimento
Aprendendo novidades sempre
Lendo os clássicos, escrevendo
Suas próprias histórias
Se enchendo de entusiasmo
Celebrando cada instante
Do novo tempo

Todos os desejos serão louváveis
Não haverá tímidos sorrisos
Somente a gargalhada escancarada
Em faces repletas de alegria
A poesia correrá pelas bocas
Canções entoadas de esperança
Sentimento que permanecerá
Nos peitos a todo instante
Não como algo vindouro
Mas, como felicidade instalada
Na alma de cada vivente.
A vida será perene
Sem dores e sem saudades
Pois, eis que surge a verdade
Plantada no meio dos povos
E, nesses dias novos
Só haverá espaço ao AMOR!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Venceu dia 10 (pago sem juros...)


Encruzilhada em Cruzília
ROGERIO SANTOS

Marquei um encontro dia dez
Mas só cheguei dia dezoito
Se o mundo deu oito giros
Rodei mil e quinhentos quilômetros
Em meu carro dois mil cilindros
Dezesseis cavalos quatro-por-quatro

Nas letras de São Thomé
Entre as montanhas de Minas
No pó da Estrada Real
Com meu amor bem à esmo
No pão-de-queijo e torresmo
de Tiradentes à Ouro Preto

Sete dias de alforria
Pelas terras de Drummond
Por Carrancas minha sina
Sem carranca de patrão
Na mente um sol sustenido
No rádio o som de Miltons

(por não postar dia 10, por perder a conexão, escrevo um poema atrasado e peço perdão...)

O Muro

Outro dia que se finda…
E a saudade, como que vinda
de um mundo ignorado,
acorda meu olhar repousado
e pergunta… por ti.

Feito um sopro de alento,
sussurro algo ao vento
como que carta escondida
ou sinal de sobrevida
para o que não está aqui.

O sim que murmuro…
O não que aturo…
E esse vazio,
mais que maduro
que carrego,
ante ao muro
que construí
entre nós dois.

E o depois,
é o recomeço do nada…
é a bainha da espada
que empunho… em vão.
Anderson Julio Lobone

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Minhas Caminhadas

imagem: pxleyes.com/blog
Minhas caminhadas me fazem homem.
Calejam minha vida,
e a faz existir,
ser!
nada mais
que eu mesmo.

tango


um tango na vitrola um vermute
à meia-luz na sala
promessa de pecado e de desfrute
mas inda se cala

aberto até acima do joelho
revela-se o vestido
decote debruado de vermelho
como prometido

e a mão conduz a mão até a dança
desliza no cabelo
daí ao colo à boca ao corpo e avança
mais — sem atropelo

e agora o que era dança beijo seja
e o que se oferecia
tomado e repartido se anteveja
como apetecia

(...)

manhã terno e vestido em desalinho
a um canto do sofá
um corpo noutro corpo faz seu ninho
— o que mais falar?



Márcia Maia


domingo, 16 de outubro de 2011

Gota

a
cada

gota

canto

como

um

conta-

gotas

conta

as

gotas

no

canto

do

copo

e

gosto

como

o

gosto

do

canto

gasta

o

gesto

gasto

do

conta-

gotas

que

conta

e

canta

como

eu

canto

quando

conto

gota

a
 
gota

as

gotas

do

conta-

gotas

no

canto

do

copo


Isaac Ruy
 

sábado, 15 de outubro de 2011

Na Sacada...

Transformei meus sonhos em bombas
Catarse em subtexto
manufaturando minha lápide
Atracado ao irmão erro
e teimando neste incesto

Fumaça !!

A Explosão é sem alarde
Poder insípido de um insulto
dos que percebem o ataque

Caim contra o espelho
mutilando a própria carne
viva e vibrante
que no inferno queima e arde !

Arda o remorso!
Contra o peito,boca e olhos
Escorrendo ao rosto a lava
derramada sobre os sonhos...

Transformados em bombas
que ascendi no sanatório
A sacada de meu quarto
sobre fumaça da cidade
O mundo e seu velório...

Caixas de metal que vão e vem
guiando a pressa do exato
Percebo um rosto assustado

Este, é porta de outro mundo
que dos limites definidos
vão dos números muito além

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

couvert

[com introdução do meu poema "arte sã"]

letra: Valéria Tarelho
música: Marcos de Assis [ao violão]
interpretação: Denise Dalmacchio



couvert 


puxe pelos
cabelos
todo verso
que ofereço

encoste as
verdades [nuas]
de costas
contra a parede

jogue no chão
os apelos
unhe o azedume
morda os medos
até que o poema uive

e caia 
venha entre
chegue junto

e depois quem sabe até possamos
civilizadamente
jantar juntos



valéria tarelho

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A verdade não entra na sala

Dream of Flight - JP
Penteio os sonhos enquanto eu falo
Por ouvidos desatentos resvalam
Nas palavras que buscam, embalo
Concluo que laicos estados matam


Os sonetos na marra vêm, os calo
Forças revolucionárias que faltam
Para que os versos saiam do solo
Distante dos paradigmas se calam


Faltam ainda no meandro cortado
Ensinamentos que fujam das leis
Colocado nas insídias e imputado


Estampado vem, diabo divulgado
Aquele que ri de seus reles fieis
Sem tempo falsa fé ganha o dado

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Um sorriso Enigmático

Num dia qualquer de sol, nuvem, neblina;
Num lugar qualquer Londres, Paris, Tokio, Jundiaí;

Tanto faz...

Soldadinhos marchavam para o abismo.

Entre eles havia um palhacinho triste
que desobedecia as ordens e sempre matinha
um sorriso enigmático.

Todos o amavam, odiavam, perdoavam, julgavam louco,
enfim, invejavam.

Na verdade, a única diferença entre o palhacinho
e os soldadinhos era que ele vira o abismo de frente.

Os soldadinhos, por sua vez, tremiam
com a idéia do grande encontro com o mistério.
Sempre gostavam de imaginar que haveriam
pontes inesperadas que levariam
não ao vácuo do não-chão,
mas às desconhecidas terras paradisíacas
onde seriam recompensados por seus
tormentos de gado.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

e.co




Minhas veias
estão cheias de memórias...
Livre pensar, sonhos de glórias.

Nisso eu saio às ruas
para assistir onde me encaixo
no cotidiano que louvo,
liberto dos lacres da história.

Alguns
heróis e otimistas
alentam o meu sorrir...
Mas,
as artérias das cidades
estão entupidas
de alegria hipócrita
e viciosa corrupção...
Protelando
as esperanças do novo,
em coágulos feitos
de ignorância e poluição.

Por hora
é descobrir no paraíso
e caminho
uma nova teima...
Sempre 
nos resta a paisagem 
refeita dos sofismas
que lhe plantam os rasgos humanos.
Varrer de vez os infernos outros...

Sendo a generosa serpente,
ignorando as cercas.


  

Lagoa do Piató. 37

Imagems: Usinaemporium    


e.co
s. m. 1. Repetição de um som refletido por um corpo. 2. Recordação, memória. 3. Fama.
ig.no.rân.cia
s. f. 1. Estado de quem é ignorante. 2. Desconhecimento. 3. Falta de instrução, falta de saber... alguma coisa; não saber, desconhecer.
ig.no.rar
v. 1. Tr. dir. Não ter conhecimento de  2. Tr. dir. Não conhecer por experiência. 3. Pron. Desconhecer-se a si mesmo. 4. Tr. dir. Não tomar conhecimento por desprezo ou indiferença.

sábado, 8 de outubro de 2011

CORAÇÃO ABUSADO



Minha boca saboreia um trem de sorrisos escancarados
quando eu cismo e sigo em frente,
faminto do melhor sabor da musamada
- madrugada afora, feito prece precoce,
a escancarada nudez de meus afetos permanece
misturada ao suor e ao cheiro de nós dois
a navegar no lençolbarco de nós mesmos.

De tão bom,
tudo [aparece e] acontece tão rápido.
Nestinstante,
depois do agora,
a lua desce toda sensual
diante dos primeiros raios de sol de mais um dia novo,
invade o ventre matutino
rompe a incolor face das esperanças roucas,
abraça meu olhar desejante
viaja na louca nave de cada um dos sonhos dengosos que insistem em ser sonhados.

É possível voar,
mas eu também caminho...