sábado, 5 de fevereiro de 2011

ALUMBRAMENTOS DE PALAVRAS CIRCUNCIDADAS

Fotografia by Oleg Duryagin

O amanhecer na minha janela me satisfaz mais que a metafísica dos livros.
(Walt Whitman)


Alumbramentos de palavras circuncidadas
perpassam intérminos paralelepípedos:
Lauréis de soluços na glande do verbo a exibir
e cravos pálidos de cruel pavor itinerante,
os de após roucas falações de fantasmas,
medem-se aos palmos de nuvens eretas
(juntam-se-lhe os canivetes e as algemas
que devem ferver em pranto até estrugirem)
― Ai! Mirar o próximo passo é inumano,
mas o que dizer das miragens abissais,
das somenas falas que elas vomitam,
da verborragia que os betumes resguardam
no comezinho prepúcio do olhar?

II 
Poema entre relâmpagos:
Arvora-se um gemido.
Não há filamento que caiba em tanto silêncio.
Dédalos com esmeraldas ainda que lerdas
congeminando-se na madrugada mental
(congeminando-se sob atmosferas de óvnis afimosados)
hão de engolir montões de antros famintos.

III 
Poeta entre fumaças:
Há o risco dos ventos pervertidos arvorarem-se em liberdade.
Há o risco da mudez dos esmolés dos cadafalsos multifacetados.
Há o risco do silêncio estrutural das flores.
Por menor que sejam os alumbramentos perpassados,
há o risco do açoite beijar o arrepio do voo:
Restos de fingimentos e margens de angulares
roerão dizeres de abutres,
roerão solstícios desnudos,
dias e anéis de fumo.

IV 
Nos paralelepípedos galhos discretos
e os olhares sem rodagens.
No sangramento as quimeras oxidantes.
Nos abraços desnudos os pêndulos sem ventoinhas.
Nos dias que morrem estuprados
os grãos pêcos das aveias e macelas.
Nos ébanos roucos os cedros envelhecidos:
raios de indecisão.


Se alumbramentos de palavras fossem uma bebida
eu repetiria a dose.
Atrever-me-ia roubar exóticas polpas das profundezas dos olhos
e beberia flores entre as fronhas.
Atrever-me-ia até a dizer que as nádegas do horizonte
riem mais do que a pas-de-deux dos naufragados no lodo,
mais do que os queixos enviesados
e seus chorumes sem orgasmos.

©Benny Franklin
Twitter - Facebook

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Oxigénio-Eva-Poema, por Gavine Rubro

A supremacia da arte
- tentando impossivelmente a rotulação -
a Mulher antes e acima da poesia,
porque a Mulher pode ser poema
mas o poema nunca é Mulher.
No seu estado mais cru,
mesmo assim,
a fêmea bípede sapiente
desperta nos lençóis,
o cacarejar acorda-a sem maquilhagem,
pó de arroz ou roupa social
ou demais artificialidades.
No seu estado mais Eva-perfeito
as pestanas inclinam-se
em direcção às sobrancelhas,
e o poema respira.

Gavine Rubro
poema também disponível aqui.

Franco

a vida não é fácil
mesmo quando parece ser
a gente vive sozinho
mesmo quando bem acompanhado
às vezes surge uma fome
mesmo quando se come demais
tudo soa tão igual
mesmo quando o som é de vanguarda


na moral


chata pra caralho
essa parada.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Triângulo

Há sempre duas sombras
velando o leito
sobre o qual eu deito
meu amor
Observãncias do Mundo:

Quanto mais a manhã se intensifica,
Mais azul é o canto do passarinho......

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Podes levar meus olhos iluminados de lágrimas.
Transporta, por favor, o amor aos rios e aos búzios, à solidão,
à sede construída.
Dá um beijo a minha mãe.
Diz-lhe que estou mais perto da luz, da noite,
mais perto de uma flor com o coração
em sangue,
sobre os flancos chorando.


Podes levar meus olhos iluminados de lágrimas,
eu atingi a dor dos poentes.


mariagomes
janeiro/2011

domingo, 30 de janeiro de 2011

John Ashbery & Marie-Clotilde Roose














O que é poesia
(Ashbery)

A cidade medieval, com frisa
De escoteiros de Nagoya? A neve

Que vem quando queremos que venha?
Belas imagens? Tentar evitar

Ideias como neste poema? Mas
Voltamos a elas como a uma esposa, deixando

A amante que desejamos? Agora
Terão que acreditar

Como acreditamos. Na escola
Todo pensamento foi penteadinho:

O que restou é como um campo.
Os seus olhos fechados poderão senti-lo por muitos quilômetros.

Agora, abertos numa trilha vertical.
O que poderia nos dar em breve? Algumas flores?



What is poetry



The medieval town, with frieze
Of boy scouts from Nagoya? The snow

That came when we wanted it to snow?

Beautiful images? Trying to avoid


Ideas, as in this poem? But we

Go back to them as to a wife, leaving


The mistress we desire? Now they

Will have to believe it


As we believed it. In school

All the thought got combed out:


What was left was like a field.

Shut your eyes, and you can feel it for miles around.


Now open them on a thin vertical path.

It might give us - what? - some flowers soon?














Dois poemas de Marie-Clotilde (Roose)


Canto livre

um corpo fresco à

borda da manhã


uma só existência

que louva e jubila

a existência


o pé direito do céu

se junta ao horizonte

ó terra fértil!


às vezes o poema

semelhante a uma prece

funde-se e dança


ao ritmo subjacente

conduz a existência

na justa medida.


Libre chant
un corps frais à
l’orée d’un matin

il suffit d’une existence
qui jubile et loue
l’existence

la droite ligne du ciel
rejoint l’horizontale
ô terre fertile!

parfois le poème
semblable à une prière
fuse et danse

au rythme sous-jacent
il porte l’exister
à sa juste mesure.



* * *


Um círculo se expande

gira sobre si mesmo

espiral sedosa

e perfumada


uma haste lhe transmite

um novo vigor

o cálice dança

sobre a ponta sonora


essências suaves

se misturam

até que se irrompa

do círculo a flor:


ó oitava perfeita!



Un cercle s’agrandit

il tourne sur lui-même

spirale soyeuse et

odoriférante


une tige le porte

d’une vigueur neuve

danse le calice

sur la pointe chantante


les parfums suaves

jouent entre eux

jusqu’à ce que jaillisse

du cercle la fleur:


ô l’octave parfaite!


(Traduções de Henrique Pimenta)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Cântico Negro


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!


José Régio


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Felicidade

A felicidade
é um estado
que cabe na minha
pequena cidade.

A lua é um hotel


O tênis de camurça verde
dança ao relento
um jazz afrodisíaco. 


fotografia: Felipe Marques

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

squared times square

A luz da manhã ilumina a cidade que eu vejo.

O meu desejo iluminado, talvez

Pela fome que eu tenho,

Talvez pela vontade também.


A luz da cidade confunde-se com a aurora

E suas calçadas coloridas minha fome decora.

Tudo devoro. tudo. A quinta avenida,

Fluídos substanciosos às minhas tripas.


A luz da noite desliga o dia,

E é dia 24hs por dia.

Minha pálpebra inicia


O desejo desnecessário da fome.

O homem é consumido

Pelo que consome.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Peralta

Sou fruto do descontente,
Rebelo-me, ausente

Sou pernas pro ar,
Vindo de um chão de nuvens

Abutre de um sem fim
De um monte de ideais

Abuso, demais, do que era em mim
Apenas um punhado de sonhos

Vereda que faz, qualquer cantor boêmio
Um mero aprendiz de sonetos infantis

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

verossímil


tuas linhas
teu sorriso
teu rosto
e teu toque [que nunca tive, nem ainda e nunca...]

fogem-me à memória...

o que me resta é um torpor
do não feito
do não provado
do sim refreado [que deveria ter tentado...]

vejo ainda que tênue
em ângulo obtuso
um leve alvitre
revelado em preto e branco,
qual foto que admite

de um sólido sorriso
entre olhos
nossos, geométricos
entre um e outro, aviso
[que se disseram possíveis...]

tomam-me à euforia
sentir o que senti, de novo
somente em mente
próspero de alforria

verossimilhança
d’uma infinda dança
nunca dançada, semi-inacabada
[como sinfonia sincopada...]

O assaltante

Pode, pode levar o que quiser de mim
Leva o celular, leva a carteira, os rins
E se puder, leva também meu coração

Pode, pode levar todo o meu dinheiro
Leva o relógio, leva o quarto inteiro,
O carro que eu ainda pago à prestação

Pode, pode ficar com minha sexta-feira,
Sábado e domingo, a semana inteira,
Leva contigo meu amigo violão

Senhor ladrão, encontrou o cara certo
Não pretendo reagir, eu não quero mais confusão
Vai pra casa e paga as contas da família
Só com esse assalto, faturou mais de um milhão

Pode, pode levar o que quiser de mim
Leva a TV, as flores do jardim
Mas por favor, não esquece o coração

Leva contigo os meus versos tolos
Leva os retratos, os quadros da parede
Pode levar também a minha rede
Os discos, o som, leva o liquidificador

Tritura toda essa loucura, esse descontrole
Essa agonia, a nolstalgia, minha cacofonia
Pode levar contigo os cacos, leva o fim do dia
Boa sorte companheiro, faça bom proveito

Não foi tudo em vão.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

tamanho


Falta mais para tingir o pano
Falta faz um rio sangrando
Falta traz paixão ou engano
Falta [me] apraz:

o coração é tamanho!



Talvez ainda haja o que dizer:

um pássaro uma flor
uma pedra uma dor
uma canção um amor...

As coisas se transformam
Se pensando ando em você

Só o sentimento permanece intacto

:

derradeiro




*Imagem localizada aqui.

Aviso de Despejo

Lagartixa Morta - foto de Rafael Nolli

Aviso de despejo 


O poeta mente quando diz
que o amor é uma flor rara,
colhida nos verdejantes jardins da vida.

O amor, deveria ele dizer,
é o ato de desespero
no qual o homem se agarra,
é o chão que o suicida deseja –
mas embaixoapenas abismo e caos.

Mente o poeta quando diz que o amor
é o porto seguro onde se ancora
e mente duplamente quando afirma que Deus
nos fez para amarmos uns aos outros.

O amor, deveria ele dizer,
é a boia pela qual o afogado anseia,
masapenas água
e mais água em sua ânsia de boiar
acima, um pouco de céu sem fundo
abaixo, um universo de barro e lodo.

Amor é um cio estragado.









* do livro Comerciais de Metralhadora

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Solidão

Estou tão inapelavelmente só
Que versos não me querem
A inspiração me abandonou
E não encontro sequer
A minha própria companhia
No deserto que se instalou
Dentro da alma vazia