quarta-feira, 24 de novembro de 2010

rósea como branca face amada



Ela disse:
estou de férias em casa
embora na verdade estejamos no mar
então eu a peguei olhando do espelho
e a forcei a concordar,
dizendo:
você deve ser a sereia
Que levou Netuno para um passeio
Mas ela sorriu para mim tão tristemente
que minha raiva passou imediatamente.
in fragmento de "A Whiter Shade Of Pale",
interpretação de Procol Harum.


Arte: Estudo de mulher (Rodolfo Amoedo)


O tempo parece paradoxal...
mas sabe também amigo, assim sinta-o.
O destino não comanda o pertencimento.
Há algo mais surreal, fantasmagórico,
posto estranhamento.

Entenda: ela é uma das virgens
escolhida para guardar o templo.
Manter acesa a chama dos sonhos
com a palidez dos sentimentos.

Maktub, assim está escrito!...

Há enorme beleza no gesto
Talvez a duas ou três décadas
vocês possam bailar essa canção.
O fandango que as mãos tonta-
mente aplaudiram pelo salão
Então verá sua face empalidecer
tornar-se ainda mais translúcida.

Certamente, você se inquietará
Atenderá aos cantos das sereias
no curso das marés em que faz
brilhar rios de arrecifes.
Porém, à Sherazade, ela bordará
fios d’ouro para que a narrativa
jamais o desmotive.

Assim estava escrito: não crê?
a chama permanecerá acesa.
E dar-se-á, enfim, o mergulho
às águas que, translúcidas,
afugentarão o oceano.

Sinta: a cama encontra-se posta.
E ela é rósea como branca a face
de sua amada.




Impiedoso poema felino


Quando os gatos se acabam debaixo da roda dos carros,
ou se matam na boca de cães domésticos
– !equilibristas insanos de muros de quintais! –
eu me nego a dormir em paz.

Não por amá-los,
pois desde sempre os odiei
com seus roucos miados boêmios:
insuportável ruído noturno perante o canto dos grilos
e dos galos,
diante do pio das corujas
e o alarme dos carros arrombados.

Não por compadecer de sua extinção.
Lamento, antes, o som de grandes vira-latas
feito saco de ossos e merda espalhados no asfalto
(quando se pode somar à suas tripas e pêlos
uma boa dose de urina ou ódio
e nada alterar em sua desgraça).

Quando os gatos aniquilam-se
em pedaços de carne envenenada,
jogadas por sobre o muro ou deixadas na sarjeta,
eu me sinto diferente de quando
as últimas aves se desfazem nos pára-brisas dos ônibus,
ou de quando o gado confinado
se esquece de sua natureza
e pensa a si mesmo como mais um dos postes da cerca.

Não por prezar-me da sina dos gatos,
pois antes de tudo amaldiçôo-os categoricamente –
esquecido do bom senso, dos modos ou da etiqueta.

Não por indignar-me de restar a eles,
e a sua classe, a corda-bamba dos muros:
por ideologia sempre acreditei ser o mundo dos homens
e de seus fantasmas,
dividido em partes iguais aos primeiros citados.

Quando os gatos são substituídos por seres genéricos,
animais exóticos ou bichinhos de pelúcia,
que não trazem mentira, asma ou alergia ao lar,
eu me nego a dormir em paz.

Não por estar a par dos últimos avanços da medicina,
das técnicas homeopáticas, dos tratamentos alternativos,
das UTIs e do xamanismo em última instância,
mas por saber o restante intratável.

Na noite em que os gatos são subjugados pelas ratazanas
e seus corpos devorados em belos ensopados,
ou servidos em noites de gala em espetinhos de bambu,
nas noites em que crianças amarram bombinhas em seus rabos,
ou os lança aos fios de alta tensão para ver os fogos,
eu me nego a dormir em paz...

Porém, eu durmo.



*do livro Comerciais de Metralhadora

terça-feira, 23 de novembro de 2010


NO PEITO DO ASTRONAUTA




Uma nave de opaco, estranho brilho
no meio das estrelas em silêncio
lá dentro um telefone
sobre um pano rendado
e as lembranças
de um cravo ultrapassado
gemendo ensangüentado
no peito do astronauta.

Caminho das pedras



Já me indagaram
sobre a água do meu banho,
imitaram meu perfume
e se benzeram com arruda.

Já me pediram
que criasse algum rebanho,
pra seguirem em cardume
meu livro de autoajuda.

Como se casar em três meses
e ainda se casar por três vezes
antes de chegar aos trinta e três?

Não há feitiço, nem mistério.
Isso tudo é muito sério
para a minha lucidez.


Renata de Aragão Lopes


Escrito ao som de Raul Seixas, na estrada Tiradentes/Juiz de Fora.
Publicado em 5 de novembro no Doce de Lira.

domingo, 21 de novembro de 2010

Inocência

Bilhetes manuscritos
Fotos, músicas e versos
Recortados e colados
Entre florzinhas e corações
Acrósticos e o nome escrito
De todas as cores e letras
Em cada folha do caderno
O papel de uma balinha
A entrada do cinema
Confissões e sonhos no diário
Guardado a chaves e medos

Muita vida depois
A inocência acabou.
O meu amor? Ainda não.

sábado, 20 de novembro de 2010

Existem amores e amores.

De noite.

Eu quero
Cobrir os seus pés
com os meus

Rezar
Por menos um
Adeus

Eu quero
desenhar você
por uma vida inteira

De luz tímida
e traço forte
Adiando a morte

Eu quero
um tempo
esquecido de acontecer

E um espaço
com espaço para eu amar você.


Julia Duarte.

dulcora

abandonamos palavras
sentimentos de separação

aprendemos a ter medo
nas fotografias em preto e branco.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Imortalizado



Arrancaram minha pele viva
Fizeram retalhos de meu corpo
Estilhaços de minha alma
Lavaram as mãos em meu sangue
Derramado sobre a mesa
Trituraram os meus ossos
E queimaram os meus cabelos
Resta apenas a sombra
De respostas a perguntas
Que me fizeram
Restam apenas os versos
Que insistente escrevi

Intacto, em uma redoma
Colocaram meu coração
Que palpitante pulsava
Descompassadamente.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Kamikases

Entardece...
e o que me emudece
ao te ver bailar na areia,
é esse teu fingir sereia,
que norteia o sol
pelo céu abaixo,
nesse escracho
que fazes no horizonte,
e de fronte ao que eu ainda sou.

Anoitece...
e o que me enlouquece
ao te ouvir cantar pra mim,
é saber que não têm fim,
esse meu vaticínio
da solidão em eterno declínio,
e a nossa risada,
por cada onda contada,
e cada abraço vivido.

Amanhece...
e o que me entorpece
ao ver teu corpo ao meu alcance,
é o suor desse romance,
escorrendo licoroso,
junto ao tempo nervoso
que devora cada hora
e nos torna kamikazes
e loucamente capazes
de entardecer...

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

um poema à hora do almoço


um poema à hora do almoço
tecido em pensamento

sem caneta
teclado
guardanapo

um poema de sentir saudade
germinado entre folhas

de alface
hortelã
manjericão

diluído em burburinho
(afinal é hora do almoço)

na fumaça
de automóveis
e cigarros

é provável que se perca rápida
e definitivamente

entre a conta
e o último
gole do café

pois para que serve um poema
de saudade

(escrito
em pensamento
à hora do almoço)

senão para perturbar o apetite e
o coração



Márcia Maia


As Mulheres no Frio

imagem: momentosindividiveis.blogspot.com


Tu, leitor, também tens a impressão de que as mulheres ficam mais bonitas no frio?

Descobri ontem, durante uma conversa com um amigo, que não era somente eu a achar isso. Repara, leitor, te recomendo. Senta-te numa mesa de bar, peça uma torrada, um café, coisa assim, às três da tarde de uma quarta-feira. Senta-te, e observa. Procura ficar perto da porta, ou cuida a guria que te serve. Certifica-te que está frio deveras, suporta-o, e repara.

As mulheres passarão diante de teus olhos apressadas, cuidando de suas vidas como tu deverias estar fazendo com a tua. Repara seus rostos, suas faces e narizes avermelhados pelo vento. Seus olhos lacrimosos pelo mesmo, voltados ao chão, preocupadas com tantas coisas que nós, homens, somos incapazes de compreender. Repara seus ombros e peitos escondidos por aquela pesada blusa de lã branca, nos fazendo imaginar coisas que passam pela nossa mente de forma tão rápida quanto seus passos, diante da porta.

E passam muitas. Repara como são tantas. Todas iguais, igualmente apressadas, com rostos vermelhos. Igualmente lindas.

Não... Não há nenhuma vulgaridade, nenhuma parte de seus corpos à mostra. Seus rebolados e formas estão escondidos por suas roupas elegantes e necessárias nessa tarde cinza, expondo somente nossas idéias e vícios, que nos perturbam enquanto nos conduzem na vida. Repara como somos mal tratados pela imaginação que temos de seus corpos, e como essa imaginação, lá no fundo, nos alegra. Uma alegria simples. É aquela distração súbita, aquele sorriso que nos vem à boca daquele charme e mistério, daquela melancolia feminina que nos seduz sem sabermos porquê.

Parece que poderíamos de repente nos apaixonar por qualquer mulher. Sobra-lhes muito de belo, como reparas. Mas mais parece que nos falta algo, numa carência que jamais será saciada. É como se não pudéssemos agir, mas apenas... reparar. E reparamos.

Ah, leitor... Também tens a impressão de que as mulheres ficam mais bonitas no frio?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Insônia, Vocação Tempestuosa


Insônia, Vocação Tempestuosa
(Tomaz Leal)

Ironia de um café gelado
Melódico como The Cure
Árduo como Sex Pistols
Erotismo, nas pernas de Demi Moore

Dúbio, o sacana Perna Longa
Dentre ícones contemporâneos
Alice in Chains, Playmobil
Clássicos, vide Roberto e sua festa de arromba

Ondas televisivas alternadas
em meio a solidão e vodka
Mensagem telefônica, tédio

Patinando nas asas do controle
Dormir ? Jamais...
Para a arte é um sacrilégio!

Créditos da foto: Lua.

domingo, 14 de novembro de 2010

das iminências

quinta-feira, 11 de novembro de 2010


Para um tipo de Amor
 q me lembra Ana C. 



sempre me considero banal

procurando desculpas
q me fazem vc

encontrando ruídos
soluço matuto
nas palavras
estreando inventivas
soluções

tipo causar
um acto de arroto
que te afasta da mesa
do bar





e te traz de volta à cama

com a calcinha a Bic borrada
dum autografo de “eu te amo”

...

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O presente



O livro não chegou em minhas mãos por acaso.
Me escolheu companheira, entre jacarandás e bibliotecas, entre fumantes e cidades.
Daquele dia em diante, talvez preenchesse uma estante. Talvez acompanhasse um abajur, um sono tardio, um espanto.
As pequenas narrações sussurraram em minhas mãos, delicadezas e vontades.
Frente a cortina entreaberta, decidi desvendá-lo.
Companheiro, eu o escolhi.


arte: Magritte

sem assobio

mulher/ técnica: carvão/ rafael godoy

tenho que te dizer hoje que a lua está linda, imensa
as palavras agitam a minha cabeça
não se encontram, não são amigáveis
uma garrafa com café já velho, um cigarro pra acender
essa tela brilhante do computador, a minha lua
nessa noite os gatos estão em silêncio
um assobio calmo e afinado destoa-se do resto da cidade
é esse assobio que me faz pensar
o homem do assobio não sabe que olho para ele da minha janela
não sabe a força de seu assobio
não sabe que sua paz incomoda
penso um jeito de parar com isso
assim a música acabaria
assim tudo ficaria igual
sem assobio, sem nada

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Plague

Seus poemas:
centopéias subindo em minhas pernas
quando os leio.

Seus poemas me ateiam
e a palavra-taturana dói
tamborilando os pés de azeite quente
em meus seios.

Seus poemas:
caranguejos caminhando pelas minhas costas,
soletrando vértebras
entre suas patas,
pinicando medo sob suas pinças,

seus poemas mordem
minhas omoplatas...

Seus poemas-praga:
devastação que não se aplaca
nem com o gelo
dos meus dedos de queimada.

CORAÇÃO DESARMADO E MISTURAÇÕES NECESSÁRIAS

tenho sorrisos
pra entregar
quando for preciso...


com as mãos firmes e brincantes da certeza
bater, na porta dos sonhos
ver, o futuro é pra onde vão meus olhos...


antes que nada seja tarde
minha alma, sorrindo, arde
tudo, é possível...

domingo, 7 de novembro de 2010

Marinha
















Jellyfish - edit by Joseph Thomas


Marinha


De novo com mania de mãozinha...

Rastejam digitais e, com jeitinho,

apinham-se seguros na marinha,

aninham-se e mergulham no inferninho.


Você, por mil demônios, numa linha

de pernas como pêndulos de pinho

perdidos no sem tempo, torvelinha

em ascendente furacão daninho.


Os dedos, nesse pique de esconder,

direito de ir e vir e se perder

de vista mar além, são poderosos.


Os dedos são brinquedos de fazer

sorrir a dentição do seu prazer

no meio dos seus mares tenebrosos.

sábado, 6 de novembro de 2010

vigília

nos pequenos
vãos
das grades
vão-se grandes desejos
universos relativos
e todas as
vãs tentativas
de se alcançar
as chaves
:
viver é ser
prisioneiro do mundo.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

À DISTANCIA

À DISTANCIA
ainda das palavras

I - TRÊS ESTÂNCIAS

1
vou à procura do poema
esperando me encontre

2
assobio para a terra
procurando ver germinar

3
em três tempos faço
três estâncias pedidas

II - TRÊS

1
insatisfeito

2
preciso mais

3
artes preciosas

III - O POEMA

movo-me aperfeiçoando
        o movimento
deixo a respiração chegar
        a inspiração
conheço esta hora onde vive
        o poema!

LÁGRIMAS REMANUFATURADAS


Para o Poeta Abílio Pacheco

Para contrafazer as rubricas desses dias de pavor:
soberbas vertigens e longes asfaltos metálicos
hão de brotar das ostras e buganvílias chorosas.

Outras raízes de cristais e gentes
soltarão bafos estereotipados
e ferirão céus.

Fêmeas genitálias hão de vislumbrar cemitérios
e, na contramão da lauda,
manterão relações sexuais
com os beatos ferrolhos das esquinas
― mas aos olhos de somenos cadáveres
outros sorrisos romperão a corrosão de partir.

Ai! Sob noites tristes e calorentas
feios jardins de enchentes ainda carnívoras
não terão nenhum medo
e nem eles afligir-se-ão com o pecado deposto
das nossas bocas desusadas e fétidas;
não terão agonia
e nem eles irritar-se-ão com o escarro broxa
que molha rostos e manufatura lágrimas.

No rosto, a cópula dos dédalos do doce envenenado.
No olhar, os aspergidos termicamente pelas narinas de grelos em espetos
― mas esses teimam e teimam em ser comparados
com as cinesioterapias em prantos,
e sentem dores de bambos apetites.

Ai! Não lembro o que tenha morrido em mim,
mas o que está morrendo no abscesso do silêncio,
o que está sangrando por maldade
nas débeis sarjetas das falações desmerecidas,
o que está gerando fomedez turva e denodada,
o que a símile fumaça
está roubando dos cigarros rejeitados,
toca-me como quem toca
a flor que se inclina ante a excomunhão.

Com o soluço aprendi
que engravidar o asfalto, é vida de viver.
E as unhas cravadas,
ainda que com êxtases atropelados,
são como as tímidas alvoradas
dos palavrões recolhidos.

― Sim! O sol ainda vive,
as lágrimas não mais...

Pululam desvairadas pelo infinito adentrante...
Animam o enviuvar da solidão...
Masturbam curvas.

 Lavoura de miragens? Sim!
Fi-lo com a melhor das entrelinhas.

― Aqui me fiz observatório em rolo,
mas fi-lo sem pensar.

Twitter: BennycFranklin

Fotografia: ID-48
tomtitop@gmail.com