terça-feira, 6 de julho de 2010

Corrente

há corrente
de prender
e de soltar

água doce
de neve
e navegar

onde vagas
as mágoas
vão morar

por saber
saber calar

e ceder
e mergulhar

na corrente
de prender
e de soltar

de olhares
e molhares
feito mar

segunda-feira, 5 de julho de 2010

REALIMENTAÇÃO

Fotografia "Hot barbecue" by Sidclay Dias
I

Poemas com cios coxos
pululam em rodagens recém empoeiradas
como facões enferrujados de circuncisão
no saco escrotal da noite.
Gritos bennyanos surrealistas,
cerrando velhas portas,
empurram o silencio regurgitado
na cabeceira do agora pulsante,
no Artêmis de antes gozo.

II

É no cimo da revolta
que um verbo hipnótico ejacula
bílis de laudas rejeitadas,
traz clareza cáqui
para o arcabouço
da poeticidade multifacetada...
Urros, movendo-se para a relva suicida
desnudam glandes beats
para o recozimento
dos cancros cegos...

III

Sob a peia do jirau
uma rosa fecal abençôa o cubano tragado
e uma insonhável poesia belemita se masturba amarelada
para vagar livre no vaivém das bocas;
para entornar em uma bacia atemporal
o torpor das línguas verborrágicas;
para confundir olhos-lodos,
os fingimentos dos punhais.

IV

Argh! Esta esperança morta
poderia ser o poema-mór
de um sonhador insosso
influenciado por jorros espermáticos
das orquídeas manufaturadas.
Tolo como véu de vulvas
e cínico e bruto como tempestade
hei de cunhar um tempo
em que a obra e o tesão poético de um fazedor
não dependa (jamais!)
da virilidade intelectual
do sorriso.

V

Será o tumor
um poeta de estômago inteiriço?
Ou será o poeta
um tumor de gramática suburbana
repleto de turbilhão de luzes
que copula o sol com socos de boxeador
e goza indolor com sorrisos
fulgurantes e orvalhados?

VI

Volto os meus ouvidos
para os inaudíveis gritos do olhar
que varam a multifaçatez da janela.
No antro além dos calabouços
um homem escreve poemas
e teima em não analisar o feedback da vida.
E agora, depois de incrédulo,
se surpreende (com lagrimas para derramar)
com a profissão da insensatez,
com o encharque da incoerência
rompendo soluços
nas cerrações do tempo morto.

By Benny Franklin

TEMA ESTE TEMA

TEMA ESTE TEMA

I
futebol é paixão e sonho
onde se solta a vida
vendo ou correndo
atrás duma bola

faz como eu
gozando jogar
ou ficando aqui
mero espectador

este é o espectáculo:
fantástico e arrebatador!

II
o teu país joga
o teu clube joga
o jogo joga-se

falo por mim,
tenho este lema:
ganhe o melhor!

procuro ver (o) melhor...

III
o meu cluble?
sou da Académica!

é da minha cidade
e futebol é minha praia

IV
espectador expectante

V
o melhor

mesmo num jogo mau
há imprevisível...

a bola solta-se
indo dum pé à cabeça
tronco ou membros

e temos na baliza
um homem olhando
na defesa das redes
os outros à pesca...

tentando domar a sorte

domingo, 4 de julho de 2010

ASSIM QUE A TEMPESTADE PAROU.

Assim Que Tempestade Parou (Fabio Terra)

Assim que a tempestade parou
Você se sossegou apanhando amuletos da sorte,
E rezou para que Deus consertasse o seu erro.

Mas preso na teia da modernidade
Continuou esperando pela última picada sem dor
E correu para o matadouro a céu aberto

Sangue e leite correram juntos
Nas ruas barulhentas e estranhas
Sangre de Cristo  lave a minha alma
Hóstia Consagrada, me façam engolir à força

Respire, respire bastardo
A fumaça é lenta e vermelha
Não quero mais esperar pelo jornal com minha foto,
Que saiu hoje! E já é passado.

Jabulani

a bola toca o coração
com efeito
com defeito
com alma de amador
com técnica de profissional

a bola faz um bem
a bola faz um mal

bate na trave da esperança
descreve a curva da vingança
mas não é justa
nem cruel

é só bola
pura criança.

sábado, 3 de julho de 2010

dazibao

aos poucos
as almas vão se juntando para ler
uma caneta deselegante e papel de pão
fazem meu dazibao

voz do povo um dia
voz somente minha agora

notícias de vidas passadas
sincronicidade dos profetas adormecidos
sol em sagitário

lembranças coladas nas paredes de cada um
vertidas em cordel e rimas
ascendente zero grau de capricórnio
após a passagem de plutão

corações pregados nos muros
sol chuva e vento
mais corações pendendo dos postes
vaga-lumes como iluminção pública

os restos do meu dazibao são relíquias
que muitos voltam
vendo, lendo, procurando
vestígios dos meus horóscopos
e da sua lua permanente em gêmeos

Modelo de Admissão (Sylvia Beirute)























MODELO DE ADMISSÃO

é como disseste:
só uma pessoa que ama outra
pode e sabe guardar o seu silêncio, mover as suas
falhas orgânicas e os seus vultos erguidos,
ler os erros que não são mais do que instintos que perdem
a consciência, tornando-se
autênticos e desmetafóricos.
e uma falha no silêncio pode não gerar uma fala
ou outro silêncio, sequer meter um ebulidor da
linguagem, bem como
uma falha no tempo de morrer pode não querer
representar a vida comunicante.
uma coisa é certa, e assim o oculto: um quilómetro
enrolado será sempre um quilómetro,
ainda que manifeste uma memória imediata,
uma distância perto.

Sylvia Beirute
inédito

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Canários Mortos

Terça
vai ser um dia real

Hoje
o Brasil
volta pro Brasil

O muro

Naqueles dias
ela percorreu um longo caminho
de desafeto e dores

perversas descobertas
palavras cegas
nós tão cheios de capricho, que lhe faltou imaginação para desatá-los.
O muro lhe pareceu intransponível visto dali
Ela não sabia se era brincadeira ou inocência.
Mas o fato é que ela sentiu medo.
Porque ele se esconde  tanto assim?
Que tanto medo é esse de se entregar?
De longe o redemoinho levantou as poeiras
tão bem assentadas nas garrafas de vidro.

Ventania quando vem não olha nada na sua frente
sai derrubando tudo, agonia e glória!!
O juízo lhe causava uma tremenda desilusão.
Ja se fora o tempo dos sonhos e  da sofrimento em vão.

Nunca mais essa canseira de todo dia a mesma coisa
Nunca mais essa mania de se esconder entre os vãos dos ossos.
Ela preferia os velhos versos de sempre ditos
Aos versos prometidos que deixam o gosto do nunca dito.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Sem juízo

Quando perder o juízo
Morderei teu lábio inferior
Como quem beija uma pétala
Te direi poemas secretos
Todo o verbo já dito

E uma flor
Quando o juízo se for

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Simplesmente no frio

Simplesmente no frio

de um dia aberto andarmos
depressa os dois

me dá vontade de gritar
Olha a gente aqui! – mas
percebo que

sabemos cada qual
no seu próprio silêncio
quanto cada qual sabe.



Cid Corman

terça-feira, 29 de junho de 2010

Confluência



Ter-te amado, a fantasia exata se cumprindo
sem distância.
Ter-te amado convertendo em mel
o que era ânsia.
Ter-te amado a boca, o tato, o cheiro:
intumescente encontro de reentrâncias.
Ter-te amado
fez-me sentir:

no corpo teu, o meu desejo
      – é ancorada errância.



Affonso Romano de Sant'Anna


segunda-feira, 28 de junho de 2010

Volição

O canto da minha boca
mudo, torto,
absorto, deixa fluir
o magma...

O canto do meu olho
mórbido, fosco,
quase morto, deixa cair
a lágrima...

O canto escuro em que se oculta
o resto, o gosto,
o mosto, a fé e o devir
é alma...

O canto que sepulta o mundo
é horto... E, ao morto,
o réquien não ouvir...
é nada...

No entanto, a dor do mundo
lindo e louco
muito ou pouco é pra nos unir
... É amálgama!

Duo

Soneto, Diamante & Grafite

Gostar-me-á do nada.

Pensar-me-á no fulerenos,
Cura danada
De todos os venenos.

Química dos eternos.

Física hibridizada
À amada.

Menos do menos.

Buscar-me-á a imortalidade
Finita
Da saudade.

Mostrar-me-á a realidade
Infinita.

carbonidade.

***

Haikai, Estações & Aves

Ao céu de Eros
no quente inverno
um amor passeriforme

***

domingo, 27 de junho de 2010

A Esperança e as Caravelas

Por entre avenidas e flores
Meu ressentimento primeiro
Holofotes anunciam guerras
E meu canto sereno apenas pede: Paz
As minhas lágrimas mudas molham as calçadas
E um vendedor de balas distraído anuncia uma alegria fugaz
Sozinhos meus passos seguem em paz.
Em busca de um caminho que já não me lembro mais.
Pouco importa, tanto faz.
A fria indiferença ante anúncios de jornais.
Aqui jaz a vida: mutilada, esquecida.
Também se foi a crença e um bocado da fé.
Esperança, teu nome é de mulher.
Possuis em teu ventre o dom de gerar.
Tecelã do fio da vida: borda um novo amanhã.
Com meninos brincando em carrinhos de rolimã.
Vai, analfabeta e aprendiz, bailarina ou atriz.
Rabisca um mundo novo no quadro de giz.
Reconstrói e apaga de uma vez quanta atrocidade persistir e surgir.
Faz com sua delicadeza um mundo com poesia de Gentileza.
Em que a gente não sucumba ante à dor e à vil esperteza.
Traça em sua tela um mundo de novas caravelas.
Descobridoras de novos corações e talento.
Bane de uma vez o lamento.
E agasalha meu sonho, de menina e de mãe.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Vem me ser

Sobe aqui, que chove lá fora
Vem degrau por degrau que é
Pr'eu me embelezar pros
Seus olhos cegos de mim e
Me espera no mesmo lugar
Aquele nosso que guarda o
Seu cheiro, seu toque,
Seu senso e seu caminhar
Aquele nosso que guarda o
Seu cheiro, seu toque,
Seu senso e seu caminhar

Mas vai correr atrás do tempo e vê
Que o sonho que eu tive se encerra
A verdade desperta e eu cansei de acordar
Que o sonho que eu tive me encerra
A verdade desperta e eu não pude evitar 
 
Pode ser, quem dera, vem me ser
Me encantei, já era, eu e você
Me entreguei, já era, eu e você.

band-aid-kura-kaos


Onde estou, só asfalto,
sem mato
abro a janela
e me mato
polui_som barulho
debulho, tudo bagulho
carro+carro+carro+carro+carro+carro+carro+carro
stressssssssssssssssssssssssss
gente_e_gente_e_gente_e_gente_e_gente_e_gente_e_
num ha quem agüente tanta
gente_e_gente_e_gente_e_gente_e_gente_e_gente_e_
todo mundo triste e ausente
gente que num desiste, insiste
só o corpo presente
indiferente
distante
colados do lado do outro lado
calado que nem gado
sempre atrasado
só traslado
de corpo abalroado...

Tô querendo mato, água de fonte, grilo falante
bosta de bicho, folha, árvore pra sol escaldante
barro no pé descalço, balança de corda
som de riacho, canto de galo que acorda
fumo de rolo, café, fubá dentro do bolo
sentado na soleira da porta, ler folhetim
colher inhame, alface, pimenta, tudo da horta
cheirar rosa, camélia, cravo, arlequim
água de cheiro, banho de rio maneiro
gosto do angu com taioba, tempero mineiro
e depois de almoço, café da tarde
traguinho de cachaça, garganta que arde
tirar uma sesta na rede de trança
daquelas que até ventarola balança
ouvindo uma moda daquela, antiga
de viola soando brilhante,de sete cordas
em volta de gente amiga
alegre , sonolenta e vadiante
onde pouco importa todo o tempo
que já vai indo...indo...embora com o vento...
E na noitinha mansa chegando
deitar no remanso de toda essa lida
com meu amor, cheiro de flor,se encostando
fazer devagar,sem nenhuma pressa
aquilo que é precioso, e bom à beça
o que tem de melhor nessa vida...

©joe_brazuca-MMIX-sp/sp/br

quinta-feira, 24 de junho de 2010

pessimismo



 caminho o mundo feito caranguejo
eternas são as voltas ao ângulo de partida
onde o porvir nasce lateral e arcaico

não é fácil destituir ponto determinado
não é fácil enfrentar feras e feridas
não é fácil tornar luxo pardieiro

às vezes me sinto sem chão, sem seio,
e, meus dias, espero contados...





*Imagem extraída do blog de André Benjamim.

Poema # 2

: impossível sem quebrar uns ossos,

talvez alguns golpes de navalha na face

(como um imprudente zagueiro

ou um barbeiro louco).


: improvável sem queimar algumas casas,

talvez algumas pessoas em praça pública

(como se fazia em nome de Deus

ou de homens alçados a).


: fora de cogitação sem pessoas,

talvez algumas que não existam

(como aquelas dos romances antigos

ou dos sonhos razoáveis).


: impensável sem amor pela vida,

talvez por uma mulher ou por um cão

(como se vê nos bares à noite

ou na rua aos sábados).


*

quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Saramago



Antes que te vás, merecidamente em paz,
para conheceres os tantos saberes que nos são dormentes em vida,
permite-me, por obséquio, uma tão breve despedida,
que não ousaria atrasar-te a ida.
Segue, homem, com toda honraria e haste à Ilha Desconhecida,
consternada te digo, pois deixaste cada obra tua
como que autografada comigo.


Renata de Aragão Lopes


"todas as ilhas, mesmo as conhecidas,
são desconhecidas enquanto não desembarcamos nelas"
O Conto da Ilha Desconhecida


Homenagem publicada em 19 de junho do doce de lira.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Efêmero

Percurso de vida

Amores, amigos, sorrisos

Na vida eterno percurso se faz



O ato

Atado de gente que pede socorro



Socorro de amor

Socorro de sonhos

Socorro de vida



Quão doce amizade

Espelha-se na fragilidade

Onde o poema chega à superfície

Busca o ar

Expira mais um sopro de felicidade

Dúvida

Durante certo tempo acreditei no que li.
Durante algum tempo acreditei no que ouvi.
Durante muito tempo acreditei no que me mostraram.
Durante o tempo todo acreditei no que me comprovaram.

Durante a minha vida eu acreditei.
Hoje sou uma dúvida permanente.


Vera Pinheiro

domingo, 20 de junho de 2010

São Pedro da Serra

o enterro descia a rua
um homem carregava uma coroa de flores:
...Saudades: esposa, filhos e netos...

a chuva não incomodava o morto
as colinas não vigiavam o cortejo
ocupavam - se com o flerte frenético das nuvens

os carros parados na contramão
a vida seguia indiferente sem se importar com
o morto

os homens bebiam no bar
as mulheres arrumavam as vitrines
os meninos jogavam bola

o morto
não interrompia o curso das horas
não percebia - se nenhuma diferença no vento
ou na correnteza das águas pelas pedras

o morto era o único ausente
ninguém compartilhava da absoluta solidão que sentia.

sábado, 19 de junho de 2010

Poeminha








Poeminha

Contudo me darei inteiro
Mesmo que de mim
Reste apenas um pedaço.

E do pouco que terei
Para oferecer-te
Ter-se-á a melhor parte.

No que há de mim perdido em frangalhos
Há, enfim, precioso fragmento
Das partes imputadas em cabais momentos
Meu inteiro é tudo que preciso

Te oferto em meio a risos
pequeno estado de contentamento
Dividido em partes de improviso
O que a ti agrada plenamente!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Poema Frio

Sim, eu sei...
Mas meu silêncio
é fruto dos dias de solidão.
Solidão que escolhi,
e que, grande companheira
me permitiu olhar os dias
de maneira sutil e generosa.
Me fez ver os homens
e seus rebanhos sem fim
com certa desconfiança.
Sim, eu sei...
Recluso em meio à multidão,
espalhei curiosidade e medo.
Mas é tudo tão simples...
Eu só queria ficar sozinho!
Mas agora vem você
que se impõe e se instala
no meio da sala
reservada às canções
e aos devaneios
deste verão chuvoso.
E agora menina?
O que vamos fazer com isso?
Dar ao mundo um início,
e costas ao precipício?
Isto não é um poema de amor.
Esta não é uma canção de paixão.
É só a minha forma solitária
de dizer que já sou teu.