domingo, 30 de maio de 2010
Um poema de amor
todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-maridos.
principalmenteas mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas, não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. Sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
Algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem. Outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todos têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e acarência me
sustentaram, me
sustentaram.
Charles Bukowski
tradução: Jorge Wanderley
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-maridos.
principalmenteas mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.
há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas, não sei mesmo o que
fazer por
elas.
sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – eu estava ocupado
com coisas maiores.
mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.
sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. Sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.
Algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem. Outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todos têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.
todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.
essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e acarência me
sustentaram, me
sustentaram.
Charles Bukowski
tradução: Jorge Wanderley
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outras plagas
sábado, 29 de maio de 2010
Acalanto
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.
Paulo Henriques Britto
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lusofonos
sexta-feira, 28 de maio de 2010
Estimados
Bem aventurados os que se vendem, pois os que se dão não têm valor.
Bem aventurados os obstaculizadores, pois fortalecem a vontade frágil.
Bem aventurados os de má vontade para com seus semelhantes, pois os disponíveis costumam ser intrusivos e sempre lançam em rosto seus sacrifícios.
Bem aventurados os egoístas, pois nos ensinam que nada devemos esperar receber graciosamente.
Bem aventurados os que dizem não.
Bem aventurados os que se calam.
Bem aventurados os que vivem suas próprias vidas e lutam suas próprias lutas e gozam seus prazeres, pois são bem menos prejudiciais à humanidade do que os bisbilhoteiros, os exploradores e os reprimidos masoquistas.
Bem aventurados os pessimistas, pois não vendem, nem compram ilusões baratas.
Bem aventurados os que, em vez de buscar sentido para a vida, lhe atribuem os significados necessários.
Bem aventurados os que sobrevivem ao fracasso, mas não vivem dele.
Bem aventurados os obstaculizadores, pois fortalecem a vontade frágil.
Bem aventurados os de má vontade para com seus semelhantes, pois os disponíveis costumam ser intrusivos e sempre lançam em rosto seus sacrifícios.
Bem aventurados os egoístas, pois nos ensinam que nada devemos esperar receber graciosamente.
Bem aventurados os que dizem não.
Bem aventurados os que se calam.
Bem aventurados os que vivem suas próprias vidas e lutam suas próprias lutas e gozam seus prazeres, pois são bem menos prejudiciais à humanidade do que os bisbilhoteiros, os exploradores e os reprimidos masoquistas.
Bem aventurados os pessimistas, pois não vendem, nem compram ilusões baratas.
Bem aventurados os que, em vez de buscar sentido para a vida, lhe atribuem os significados necessários.
Bem aventurados os que sobrevivem ao fracasso, mas não vivem dele.
duetto

Campo Grande, maio de 2010.
28.05.10
para as noites que não virãofaço poemas descartados
e da nostalgia esqueço
Haiku de Outono
Casca rachada
ipê amarelado
e o frio lunático.
in S A P O I E mar/abr/mai
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Felipe
quinta-feira, 27 de maio de 2010
Somente Tua Alma Foi Dilacerada

Somente tua alma foi dilacerada.
Pouco importa tuas contas dadas.
Regras, leis, CLTs, anúncios de jornal...
És sempre o culpado. Há os que amem os poetas anônimos, os que se rasgam e não se entregam...
Há também aqueles que só te consideram enquanto poetas íntegros: que se dilaceram...
Há os que esperam suas vestes rasgadas,
Suas noites insones...
Seus versos dobrados sob o papel.
Aí, eis poeta!
Com chances, passaportes, canudos...
Flores, belas vestes, escudos...
Das suas dores ninguém quer saber, poeta!
Ela e sua e só a ti pertence!
O apogeu de todo mal.
Que importa o que importa se não pagastes a conta?
O sanatório?
A exoneração?
A aposentadoria por invalidez?
Não pagastes a mensalidade da filha da filosofia....
A mãe de tua agonia.
E agora poeta?
Para que comprastes brigas?
Para ouvir a lei mais rica de quem se corrompe ao mal?
Vai, poeta, cala-te, agora....
Paga tua conta e vai embora....
Entender e a veia matriz do maior mal.
E já que não tens dinheiro, vendas canções de fevereiro.
Massagens embaixo do chuveiro.
Faz propaganda enganosa.
Vai poeta, feito em riso e prosa.
Esquece as lágrimas vãs...
Vá aos bréus do coachar das rãs...
Finges que ris e coachas, a dor do que não foi par perfeito.
Chora pelo que lhe é de direito.
Grilha feito grilo, coacha feito rã...
Vai poeta timoneiro, acende na tocha uma nova manhã...
Paga a conta e some do mapa....
Esquece setas e rumos....
Segue amanhã que amanhece e o sol que, de graça, aquece....
Teu poema não requer timoneiro...
Seu verbo não tem tesoureiro...
Paga, poeta a última taça.
Arregaça a manga e ameaça.
Abraça a vida como sua.
Alyne Costa
Maio de 2010
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alyne
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Um soninho

As vezes em meio ao montinho de cobertor sinto frio.
Sem mais nem menos, um arrepio pela minha pele caminha.
Sinto medo, um medo de não voltar,
um medo de não ter mais o brincar.
E o frio continua.
Com sua espreita sombria.
Sobre mim assobia.
Sinto esvair de mim a esperança e
a vela entra na dança:
Sombra, luz, sombra, luz, sobra sombra, falta luz.
Como crescer perdendo o medo do escuro?
Como crescer e não temer mais o desconhecido,
para que aquele conhecido, vire um amigo?
Eu poderia dizer se da cama pudesse descer,
mas o cobertor me protege, me acolhe, me acalma.
Eu poderia ser como os heróis, mas por que quando choro todos eles se vão?
Mais uma vez o frio. Abusa da minha companhia, urra da minha apatia.
Eu o esqueço, fingo que o esqueço, apenas espero.
Logo o sono vira meu amigo, logo os sonhos serão meu abrigo.
Mas o frio ainda estará lá amanhã.
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Pedro Xudré
terça-feira, 25 de maio de 2010
Talvez
Talvez você nem saiba
Que quando você passa
A rua inteirinha se faz acordar
A rua inteirinha te anuncia
Talvez você se esqueça
Que caso eu mereça
A vila inteirinha vai conspirar
A vila inteirinha te assedia
Talvez você me entenda
Quando eu criar a cena
Que a cidade inteirinha vai elogiar
Que a cidade inteirinha me veja
Construí uma avenida
Com palavras e aquarela
Coloquei seu nome nela
E fechei com fino estar
Usei cubismo em duotone
Com paletas de egoísmo
Foi aquém do que eu preciso
Pra só eu te ver passar.
Acaso

Maria vinha de carro
Maria vinha de "a pé"
Maria vinha de barro
Maria vinha José
José tinha um sarro
José tinha sua fé
José tinha pigarro
José tinha rapé
Maria queria jarro
Maria queria café
Maria queria cigarro
Maria queria ter fé
José queria Maria
Maria queria José
José queria um dia
Maria queria, pois é
(ilustração : "Pavão Misterioso" - Gilvan Samico)
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joe_brazuca
segunda-feira, 24 de maio de 2010
____* queda
Eu te amei!
As pedras do paleolítico
bem previam...
Mas nossa primitividade
virou poeira em frágil edificação
e, das cinzas, nenhuma Fênix
ressurgiu.
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Hercilia Fernandes,
ruínas
Legenda para filme de Sergei Eisenstein
O poema tem que ser ácido,
não por mim,
mas por Sacco & Vanzetti –
sentados em cadeiras onde serão eletrocutados.
O poema tem que ser ferino,
não por mim,
mas pelo Líbano novamente bombardeado –
e que será bombardeado até que os telejornais
se cansem de noticiar a desgraça dessa guerra.
(Que o verso noticie as crianças confusas,
as bibliotecas cheias de poesia,
as mulheres agarradas às barbas de Maomé,
os cedros cantados pelo profeta Ezequiel –
todos excluídos das estatísticas,
pois suas mortes foram desprezadas
por não venderem jornais
e atrapalhar o comércio bélico.)
O poema tem que ver além do seu próprio umbigo,
não por mim,
que muito sei do meu umbigo,
mas por todos aqueles que amanhã
acordarão desesperados –
eu e meu umbigo entre eles.
O poema tem que ser denunciante,
não por mim,
mas por Ruanda
que na Noite dos Facões
perdeu um milhão de seus filhos
para uma fábula belga
sem príncipe encantado ou final feliz.
(Que no poema escorra o sangue dessa gente
que ainda ontem estava viva,
donas de suas mãos e
cabeças decepadas pelos vizinhos,
onde buscavam o sal
que faltava para colorir as suas mesas escassas.)
O poema tem que ser visionário,
não por mim,
que mal posso ver além das brumas do agora,
mas por todos aqueles que mesmo vendados continuam
sem dosar os passos no campo minado das cidades.
(Que o poeta saiba cantá-los
sem se esquecer dos
crimes diários que a sociedade obriga-os a cometer
[Bakunin sorri nessa estrofe!])
O poema tem que ser dos homens,
respirar o mesmo ar que eles,
chorar os mesmos mortos,
estar ombro a ombro nas filas dos hospitais
ou nas trincheiras do desemprego,
não por mim, poeta, não por mim.
*
não por mim,
mas por Sacco & Vanzetti –
sentados em cadeiras onde serão eletrocutados.
O poema tem que ser ferino,
não por mim,
mas pelo Líbano novamente bombardeado –
e que será bombardeado até que os telejornais
se cansem de noticiar a desgraça dessa guerra.
(Que o verso noticie as crianças confusas,
as bibliotecas cheias de poesia,
as mulheres agarradas às barbas de Maomé,
os cedros cantados pelo profeta Ezequiel –
todos excluídos das estatísticas,
pois suas mortes foram desprezadas
por não venderem jornais
e atrapalhar o comércio bélico.)
O poema tem que ver além do seu próprio umbigo,
não por mim,
que muito sei do meu umbigo,
mas por todos aqueles que amanhã
acordarão desesperados –
eu e meu umbigo entre eles.
O poema tem que ser denunciante,
não por mim,
mas por Ruanda
que na Noite dos Facões
perdeu um milhão de seus filhos
para uma fábula belga
sem príncipe encantado ou final feliz.
(Que no poema escorra o sangue dessa gente
que ainda ontem estava viva,
donas de suas mãos e
cabeças decepadas pelos vizinhos,
onde buscavam o sal
que faltava para colorir as suas mesas escassas.)
O poema tem que ser visionário,
não por mim,
que mal posso ver além das brumas do agora,
mas por todos aqueles que mesmo vendados continuam
sem dosar os passos no campo minado das cidades.
(Que o poeta saiba cantá-los
sem se esquecer dos
crimes diários que a sociedade obriga-os a cometer
[Bakunin sorri nessa estrofe!])
O poema tem que ser dos homens,
respirar o mesmo ar que eles,
chorar os mesmos mortos,
estar ombro a ombro nas filas dos hospitais
ou nas trincheiras do desemprego,
não por mim, poeta, não por mim.
*
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domingo, 23 de maio de 2010
Coisa de ninguém
a poesia
não é minha filha:
não me vem do útero
bacia
e virilha
a poesia
não é minha arte:
não me vem do estudo
bibliografia
e encarte
a poesia não me vem
a poesia não é minha
Renata de Aragão Lopes
Poema publicado em 3 de maio no doce de lira.
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Renata

Profissão de infidelidade
Eu sei por onde erro. Ou não.
Porque não creio nas verdades prontas
Eu sei por onde acerto. Ou não
Porque não posso com as mentiras tontas
Eu sei o que me cobro. Ou não.
Porque nem sempre tenho a paga esperta
Eu sei o que eu escolho. Ou não.
Porque não quero mais ser sócio atleta
Eu sei o que discuto. Ou não.
Porque de perto sei que não estou certa
Eu sei o que proponho. Ou não
Porque sou arco tanto quanto seta
Eu sei de que preciso. Ou não.
Porque meu coração nem sempre acerta
Eu sei o que eu escuto. Ou não
Porque o que dizem todos não me afeta.
Eu sei o que pretendo. Ou não.
Porque atrasada é outra a descoberta
Sei que sou incompleta sim
Mas eu prefiro
Do que pensar que eu estou sempre certa
Não acredito em nada, não pretendo
Dar lições a ninguém, não quero aulas
Quero ser infinita enquanto dure
Quero ser uma dúvida perene
Quero a complexa palma
Quero ser toda alma
Inquieta e calma
Eu sei por onde erro. Ou não.
Porque não creio nas verdades prontas
Eu sei por onde acerto. Ou não
Porque não posso com as mentiras tontas
Eu sei o que me cobro. Ou não.
Porque nem sempre tenho a paga esperta
Eu sei o que eu escolho. Ou não.
Porque não quero mais ser sócio atleta
Eu sei o que discuto. Ou não.
Porque de perto sei que não estou certa
Eu sei o que proponho. Ou não
Porque sou arco tanto quanto seta
Eu sei de que preciso. Ou não.
Porque meu coração nem sempre acerta
Eu sei o que eu escuto. Ou não
Porque o que dizem todos não me afeta.
Eu sei o que pretendo. Ou não.
Porque atrasada é outra a descoberta
Sei que sou incompleta sim
Mas eu prefiro
Do que pensar que eu estou sempre certa
Não acredito em nada, não pretendo
Dar lições a ninguém, não quero aulas
Quero ser infinita enquanto dure
Quero ser uma dúvida perene
Quero a complexa palma
Quero ser toda alma
Inquieta e calma
sábado, 22 de maio de 2010
PAISAGEM
A lua quase cheia...
Eu, na varanda,
outra vez sem sono.
A lua quase cheia...
Debussy na vitrola
Clair de Lune...
Outra vez o Dona Marta multilight
pisca mais do que piscam
as luzezinhas das árvores de Natais
E outra vez
na varanda,
delineio os montes
finjo desenhar
rabiscando os morros
colorindo as luzes.
luz branca
verde-amarela
(gol do Brasil!!)
Bandeirinhas que adivinho
dançarem ao vento,
bailarinas plásticas.
E o Cristo
amarelo fogo...
a lua acima dele
um pedaço quebrado de strass.
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melo
sexta-feira, 21 de maio de 2010
Em branco
Há momentos em que me sinto
como folha em branco,
uma página vazia,
o silêncio retumbando dentro do meu ser,
amplo e pequenino ao mesmo tempo.
Há dias em que me sinto num brete,
encurralada para a tosquia do que preciso me desfazer,
como rês a ser abatida para alimentar
os famintos e os insaciáveis.
Eu me pergunto como teria sido
se os rumos fossem outros
e as escolhas, diferentes.
Nada pode ser mudado no ontem.
No máximo o agora pode ser refeito
Para que o futuro não seja
Como o hoje está.
Vera Pinheiro
como folha em branco,
uma página vazia,
o silêncio retumbando dentro do meu ser,
amplo e pequenino ao mesmo tempo.
Há dias em que me sinto num brete,
encurralada para a tosquia do que preciso me desfazer,
como rês a ser abatida para alimentar
os famintos e os insaciáveis.
Eu me pergunto como teria sido
se os rumos fossem outros
e as escolhas, diferentes.
Nada pode ser mudado no ontem.
No máximo o agora pode ser refeito
Para que o futuro não seja
Como o hoje está.
Vera Pinheiro
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pinheiro
quinta-feira, 20 de maio de 2010
oiticica
não há para onde voltar
fora da memória cativa
dos delírios
aberta as chagas
os pregos cravados
no espírito
o cheiro do caminho das moças
o vento batendo
na clitoria racemosa
fora da memória cativa
dos delírios
aberta as chagas
os pregos cravados
no espírito
o cheiro do caminho das moças
o vento batendo
na clitoria racemosa
Eu te amo duas vezes mais.
Se tornar princesa pela primeira vez
tem o frio da instabilidade
E pede uma promessa de amor parcelada
na esperança de reservar um futuro
Mesmo que o amor
ainda não tenha, de fato, se apresentado
O costume é morno
no discurso
As mesmas respostas de amor
Não intimidam
Não surpreendem
Viciam
Confortam
- Te amo.
- Eu também.
Quanto de amor
existe em frases como essa?
O amor repetido
tem duas vezes mais amor
O dobro daquele prometido
no ápice da precipitação.
Julia Duarte.
tem o frio da instabilidade
E pede uma promessa de amor parcelada
na esperança de reservar um futuro
Mesmo que o amor
ainda não tenha, de fato, se apresentado
O costume é morno
no discurso
As mesmas respostas de amor
Não intimidam
Não surpreendem
Viciam
Confortam
- Te amo.
- Eu também.
Quanto de amor
existe em frases como essa?
O amor repetido
tem duas vezes mais amor
O dobro daquele prometido
no ápice da precipitação.
Julia Duarte.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
O Menino e o sino
Um beato murmureja
uma Ave Maria!
Um menino boceja
pensando em Mariazinha!
A igreja vazia
é convite para brincar
com o sino.
O menino corre vadio
para a torre da igreja.
A passarada em alvoroço
voa lá de cima.
E o sino grita alto,
Eis um menino peralta
"Blém, belém, blém, blém..."
Nervoso, o sacristão
corre e vem dizendo:
"Chispa, menino matreiro,
filho de garrucheiro,
seu moleque atrevido!
Quem disse que podias tocar o sino?"
E o menino corre sorrindo,
feliz da vida,
feliz pelo sonho realizado!
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Flávio Offer,
Poesia
terça-feira, 18 de maio de 2010
Minha Alma Livre
Observe minha alma.
Ela é livre, pura
solta e as vezes obscura.
Tente entendê-la
por mais que não possa vê-la...
por mai que não possa tê-la...
Ela não é de ninguém...
nem foi... nem vai...
E a cada noite que cai
ele se renova,
e prova
o quanto voa por aí.
Entende,
cada vez que se surpreendes
com sua nova direção,
muitas vezes na contramão,
é que ela quer dar o sinal,
que voar não faz mal, enfim,
nem para você,
nem para mim.
Observe... observe e sorria,
milha alma tem carta de alforria,
desde que a noite vadia,
se deitou com o novo dia.
Aproveita,
pois quando minha alma se deita,
ai ao lado tua,
é porque a lua,
ainda não me chamou lá fora,
e antes que chegue a hora,
me beije com muita vida,
porque minha alma esquecida,
vai se deslumbrar com a partida,
e pode ser que nunca mais,
queira olhar para trás.
Vai, me beija com ternura,
pois hoje minha alma ainda é pura...
e somente tua!
Ela é livre, pura
solta e as vezes obscura.
Tente entendê-la
por mais que não possa vê-la...
por mai que não possa tê-la...
Ela não é de ninguém...
nem foi... nem vai...
E a cada noite que cai
ele se renova,
e prova
o quanto voa por aí.
Entende,
cada vez que se surpreendes
com sua nova direção,
muitas vezes na contramão,
é que ela quer dar o sinal,
que voar não faz mal, enfim,
nem para você,
nem para mim.
Observe... observe e sorria,
milha alma tem carta de alforria,
desde que a noite vadia,
se deitou com o novo dia.
Aproveita,
pois quando minha alma se deita,
ai ao lado tua,
é porque a lua,
ainda não me chamou lá fora,
e antes que chegue a hora,
me beije com muita vida,
porque minha alma esquecida,
vai se deslumbrar com a partida,
e pode ser que nunca mais,
queira olhar para trás.
Vai, me beija com ternura,
pois hoje minha alma ainda é pura...
e somente tua!
segunda-feira, 17 de maio de 2010
O que me irrita
é essa obrigação de ser feliz.
É essa pretensão de sempre vermos cores em tudo,
de apreciarmos os amanheceres,
de nos encantarmos com cantos,
de nos divertirmos com crianças pelas ruas,
de pularmos carnaval,
de acharmos singela a ignorância alheia.
O que me irrita
é essa indecência que é assumir frustrações.
É essa incapacidade de nos assumirmos limitados.
Essa alegria toda, por conveniência.
Essa baboseira em que nos tornamos.
O que me irrita
é essa futilidade em que se tornou
o ato de sentir.
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Diego Rodrigues
longe é um lugar que ainda existe
a habitual e inevitável discrepância
do tempo-espaço presumido como quântico
assim sentido assim vivido como dogma
imiscuindo às equações do dia-a-dia
cotidiana e virtual geografia
(e onde encontrar perfeita rima para dogma?)
que se desliza ardente e doce como cântico
e faz o aqui sentir-se ali sem mais distância
até que um dia faz-se urgente e essencial
estar-se perto — e a emoção rompe a cortina
mas há o espaço e há o tempo de permeio
(newtoniano e pragmático floreio)
e a teia quântica esgarçada se arruína
na inevitável discrepância habitual
Márcia Maia
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marcia
domingo, 16 de maio de 2010
sábado, 15 de maio de 2010
Outro!
Escrevo na quietude do quartinho, a barriga protuberante, os pelos pubianos eriçados e o pênis entocado feito um filhotinho doente. Qual a utilidade de deitar palavras, senão pelo desejo incompreensível de ser lido? É isso que realmente almejo, ser lido? E sendo lido, o que espero do outro? Que se emocione, que me tenha no mais alto conceito, que queira ser eu? Talvez acredite piamente que, no instante em que sou lido, estou abrindo a porta de casa para quem quiser me ver desonrado, destituído de dignidade humana, nos moldes: quer me humilhar abre logo a porta do banheiro quando eu estiver cagando. E no percurso da leitura, essa pessoa estará sentada ao meu lado, presenciando o fluxo mental de um homem perecível, contemplando sem julgamentos a nudez relaxada dum homem mofado.
Observo conhecidos que transitam pela cidade, convivendo em bares, em teatros, em lotações. Engajados em algum projeto pessoal ou coletivo, inscritos em cursos de verão ou academias de ginástica, todos muito mais felizes que eu. E isso me parece ridículo! Me recuso a adotar um estado de espírito que seja circunstancial! No entanto, escrevo estórias. Mais que isso: preciso que sejam lidas. Há! Existe algum elemento químico, bio-lógico, por trás disso, uma lacuna fisiológica na compreensão de arte: ela deveria ser foco de estudo de cientistas, não de artistas. A arte é um caso clínico.
Cada vez que me privo do contato humano, mais personagens e mais diálogos crio no papel. Será que teremos que conviver, de um jeito ou de outro?
Observo conhecidos que transitam pela cidade, convivendo em bares, em teatros, em lotações. Engajados em algum projeto pessoal ou coletivo, inscritos em cursos de verão ou academias de ginástica, todos muito mais felizes que eu. E isso me parece ridículo! Me recuso a adotar um estado de espírito que seja circunstancial! No entanto, escrevo estórias. Mais que isso: preciso que sejam lidas. Há! Existe algum elemento químico, bio-lógico, por trás disso, uma lacuna fisiológica na compreensão de arte: ela deveria ser foco de estudo de cientistas, não de artistas. A arte é um caso clínico.
Cada vez que me privo do contato humano, mais personagens e mais diálogos crio no papel. Será que teremos que conviver, de um jeito ou de outro?
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tenório
sexta-feira, 14 de maio de 2010
romantique
[valéria tarelho]
seu cheiro
- choque -
: rasgo de ar puro
no meu sufoco
viciado
seu cheiro
- chique -
: eau de homem
[poésie poison passion]
bouquet urbano
no meu ranço flor do campo
seu cheiro
- xis -
: agente noir
infiltrado
na curva [alva]
do meu anseio
seu cheiro
lance certeiro
: estratégia
movimento
ataque
seu cheiro
: argumento
ou fato
xeque-mate-me
L'individu bien conforme est taillé d'un bois à la fois dur, tendre et parfumé
Nietzsche
seu cheiro
- choque -
: rasgo de ar puro
no meu sufoco
viciado
seu cheiro
- chique -
: eau de homem
[poésie poison passion]
bouquet urbano
no meu ranço flor do campo
seu cheiro
- xis -
: agente noir
infiltrado
na curva [alva]
do meu anseio
seu cheiro
lance certeiro
: estratégia
movimento
ataque
seu cheiro
: argumento
ou fato
xeque-mate-me
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valéria
Engenharia do Incerto
Nasce a incerteza pós-parâmetro
no paralelismo da irregularidade
O instante escondido entre intervalos
Enigma rígido da realidade
Improvável é mensurar a natureza
Nosso limite é o vazio...
Em frente à imensidão azul do mar
sou como a formiga que no pão dormiu !
E se retas paralelas se cruzarem no infinito?
Cem por cento é margem de erro
No caixão da ciência ecoa um grito
Entre o piso acabado e o inferno
a interrogação é o aterro !
no paralelismo da irregularidade
O instante escondido entre intervalos
Enigma rígido da realidade
Improvável é mensurar a natureza
Nosso limite é o vazio...
Em frente à imensidão azul do mar
sou como a formiga que no pão dormiu !
E se retas paralelas se cruzarem no infinito?
Cem por cento é margem de erro
No caixão da ciência ecoa um grito
Entre o piso acabado e o inferno
a interrogação é o aterro !
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Tomaz
quarta-feira, 12 de maio de 2010
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Fado
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A mais de 7 palmos
esculpiu uma guirlanda
na hora do besouro
----------------e na cova do besouro
----------------deixou semente de angelim
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E foi naquele labirinto
sufocante e cingido
----------------( não obstante certos mareios
----------------de umidade ilusória )
que brotou uma árvore
já com um pássaro pousado
um balanço de cordas
uma filha sentada
----------------e tudo
e as gargalhadas da menina
deram ao mundo sua canção
*
*
Dedica-se
agora
a rir e a empurrar a criança
em seu destino de nuvem
*
mas, resoluto
----------------o inseto
escarafuncha a galeria por dentro
*
e esse eterno revirar
já rendeu
uma perfuração de úlcera
alguns chiliques
----------------e aquele ar
----------------de quem um dia
----------------pisou na merda
*
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