sábado, 10 de abril de 2010

RESPOSTA BONITA






RESPOSTA BONITA

Conte-me histórias
Das caravelas em névoas de sal
Das armadilhas do mar adoçado por rios
Que batiam nos trapos às tempestades
Em peitos estufados de coragem
Fracos em armaduras, como hóstias trincadas
Nas escunas traziam peixes com asas
Já pássaros que voavam aos céus
Mortos pela boca
Por ecoarem cantos ao vento
Desejando o poder de terras avistadas
As pedras retumbaram
Você surgindo nas areias
Entre espumas de alquimia
Brilhando alva
O silêncio
paz bonita
Suavidade



Cíntia Thomé
2008










IMAGEM 'Suavidade' FOTÓGRAFO PROFISSIONAL KAIS ISMAIL - Porto Alegre - RS

sexta-feira, 9 de abril de 2010

atrasados

aquarela/ rafael godoy

estamos atrasados, meu amor
o rio já correu
o sol já se foi
e o dia ainda não foi embora

perdemos a noite escura
mais negra que os olhos do diabo
perdemos a hora de dançar com as árvores
com seus galhos como as mãos da morte

o vento está morno e fraco
as flores não têm cheiro
perdemos o trem
que atravessa a cidade
não vamos a lugar nenhum
o tempo já passou

ficamos aqui de mãos dadas
como duas crianças perdidas
as ruas são longas
e estreitas as esquinas

estamos atrasados, meu amor
o mundo esmaga os nossos sonhos
lentamente, lentamente...

UVA PASSA


Estava com os cabelos melecados de tinta logo após a coloração. E para completar o visual-medusa, uma capa branca, leitosa e plástica. Frequentar salões de cabeleireiros unissex pode ser muito constrangedor. Mais do que se imagina.

A cadeira ao lado da minha fôra logo ocupada por um cliente que cortava os cabelos enquanto eu aguardava os meus trinta minutos de tinta.
Tão logo ele sentou-se, desatou a falar. A cadeira giratória: divã. Em meu pensamento, aquele divã improvisado era preferência das mulheres, nos intervalos entre esmaltes, grampos e tesouras. Engano meu.

De início eu ouvia sem querer, com olhos fixos em meu livro, a sessão ao lado. Porém, depois foi inevitável não abrir os ouvidos.
Ele contava de uma garota. Ela convidou-o para sair na sexta. Ele deu uma desculpa e sugeriu quem sabe no sábado. “Quem sabe” ao que ela prontamente respondeu : “Confirmado!” . Ele não queria. Ela não percebia. Ele dizia que o homem cerca (“cerca”?!) , isto é , não deixa escapar (“escapar”?!) quando realmente quer. Abri mais os ouvidos para analisar com curiosidade suas falas, afinal, nem sempre se chega tão perto do Clube dos bolinhas. Foi então que ele declarou: “mas eu estou interessado em outra, esta é só back-up, claro!”. O back-up ecoou raivoso em meus ouvidos. “back up”?! “back up”. Pulei disfarçadamente para o sofá lateral e reabri o livro numa tentativa esforçada de concentração. Não conseguia mais ler. No entanto, já não mais ouvir a sessão daquele paciente, me aliviou.

Hora de desfazer meu penteado-medusa. Sentada no lavatório, com a capa branca leitosa, os olhos fechados para sentir a massagem, ouvi pertinho: “Desculpe, você já estava virando uma uva passa por ter que esperar!” Era o “paciente” que me abordava. Eu pensei: “uva passa?????” Olhei para a minha capa branca amarrotada: “uva passa??”. Pensei nos meus quarenta anos: “uva passa???” Será uma referência ao tempo que eu aguardei a coloração – “uva passa”?
Então abri os olhos e me deparei com o olhar do moço, sem graça. Ele desculpava-se pela demora de seu corte de cabelo. Não se desculpava pelo “back up”. Aliás, ele se desculpava, certamente pelo seu mal pronunciado “back up”.
Devolvi um sorriso amarelo. Ele tentou novamente: “É que você tem mesmo que aguardar a tinta fazer efeito, não é?” Eu: “É..”

Por fim, o moço, desconcertado, montou em sua supermoto estacionada na entrada do salão e saiu a galope.
Eu deixei de sentir raiva. Uva passa, back up... Ele não sabe mesmo se expressar e ainda tem muito a descobrir sobre o sentir.



imagem: Magritte

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Ingratos


Abandonou Medéia,
o Jasão,

mas ela deu um jeito,
dele não precisar pagar pensão.

Abandonou Ariadne na praia,
o imbecil do Teseu.

Bem-feito:
depois Fedra
o fodeu

Bom destino
o do cafajeste de antigamente:

os deuses não faziam vingar
suas sementes.

ABREVIATURA PARTICULAR

a paz
cheia de sorrisos
passeia nos meus pensamentos.

desde sempre
como quem não quer nada
a alegria acaba beijando meu coração.

de quando em vez
eu e meus desejos, seguimos
caminhando nas palavras.

a sina
suave
salta aos olhos.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

dispersão


a anatomia do carrapicho
(me ensinou o Marcos)
são fractais de estrelas
na fusão físico-biológica
que arquiteta a astronomia


(do carrapicho a anatomia
é anversa a do bicho
e se antagonizam na intenção)


: o bicho o repele
pela dor que na pele
o torna praga
sem perceber
que repelindo
o propaga.

(ao Marcos Siscar, das nossas conversas sobre o carrapicho e suas possibilidades de verso).

clara a parte
tão
relutante

[ a nossa falta
de
luz]

somos próprios
dessa espera
e
passamos

poema e foto : isaias de faria

terça-feira, 6 de abril de 2010

Concordância

será que no princípio
deus fez questão de
conjugar o Verbo?

Dentro e fora
ROGERIO SANTOS

por dentro um mundo
por fora a casca
portas e janelas
cerradas

por dentro um mundo
por fora há água
frisos e frestas
penetradas

por fora um mundo
por dentro há água
trancas e ferrolhos
oxidados

por dentro um mundo
por fora alarde
alicates, alavancas
e pés-de-cabra

por dentro um mundo
por fora um rito
força de vento
som de atrito

por fora um mundo
por dentro morada
portas e janelas
escancaradas

segunda-feira, 5 de abril de 2010

. E VIR,GULA

é um vício
até apetecível

seria guloso
mas não,

vivo deste rigor

LAPELA DOS PARADOXOS IMPOTENTES

1 Lá ao longe
na lapela dos paradoxos impotentes
o deserto esticado
e os arbustos natimortos dos umbrais favelados
de homens com macieza arrefecida
― Nas ventas dos tumores malignos
o pouso aéreo das borboletas de programa,
o trajeto das coisas redivivas,
o transe das pessoas dormindo
com o cobertor em pane...

2 – Lá no quaradouro dos astros cômodos
a renque de estalos de palavras
vomitando sob o dormitório da memória
― A prima face da relva
rende a súbita resposta dos óbolos metafísicos
esculpindo o rugido com hálito
e útero sem dobra.

3 – Há e há o cio geométrico
por traz dos olhares imbuídos de milagre
resguardando o suspirar da faca
― Na boca
os restos de alimentos reconvexos
 hesitam em endeusar o avesso da vida
para saborear a partida à noite.

4
Na hesitação das falas obscenas
a física do trajeto
e o vinhedo clandestino dos mortos
 fazendo sexo de mãos à cabeça
― Eu sei: há no gozar sem cautela
a armadinha de reinventar
feita de mendicâncias.

5 – Ai! Rogo à vida
as súmulas dos pastos,
as fagulhas de umbigos cálidos,
os mantos de escolhas e vindas,
o sim dos homens insones
― Eu sei: há desperdícios de tardes ocas
gotejando
gotejando
as ondinas gramaticais dos poetas 
em lágrimas.

 
Fotografia: New Moon By Ana Mokarzel

domingo, 4 de abril de 2010

Humanidade

compaixão
caridade

nem me falem em amor

que isso
é
bobagem.

sábado, 3 de abril de 2010

puerícia

aviões de montar
amigos que tinham hobbies
eu não tinha nenhum
carrinhos matchbox colecionados
um que eu tinha logo soltou a roda
partido coração sem amor

primeira vez que entrei num sebo
convenci meu pai que aos dez anos
leria o homem tatuado de ray bradbury
apostei tudo naquele livro de segunda mão
li reli e vi que os livros viajam sem donos

carros e motos nunca pararam meus olhos
palavras sim me estacionavam no ar
caído que sou por coisas quase eternas
meus oito anos
casimiro usaria meninice
talvez infância
eu prefiro puerícia

ainda pergunto à minha criança interior
o que você vai ser quando crescer?
continuo procurando pistas

olhos de céu



Vem, deita agora, meus olhos de céu
aquieta que vou te mostrar o que posso fazer
com minha boca de anjo roto...
Entre os trapos e lençóis te abocanhar,
te flagelar entre a regra e a sensatez
Esse é o meu feitio.
 Em silencio, o oratório da minha lingua  pousar sobre ti

com fome convulsivamente
com fome de visceras e ruínas
te castigo, te devoro.
entre murmurios...

E esse corrego sobre os nossos pés.....

Poema de Beneficência - Sylvia Beirute

POEMA DE BENEFICÊNCIA

introduza um colapso numa dúvida. recolha-a por elementos. coloque perguntas ao redor. as respostas situam-se entre tempos verbais. um detalhe apaga-se para dar lugar a outro. a memória como um todo. qualquer força para medir é uma inexpressão na arte. não há um só caminho aberto em direcção a um caminho aberto. imperdibilidade é um modo feio de beleza. as coisas mais belas são decíduas porque não assíduas. como aquele fragmento de biografia sem palavras que procura corporalidade no texto. o seu instinto difásico é como um diálogo em que as duas linguagens se friccionam e encontram como que numa orla central em que tudo o resto se autopune até à morte, ficando um quadro de órgãos estrelados. quem entrou aqui introduziu um colapso numa dúvida, recordo. quem tem dúvidas não morre verdadeiramente. recolher elementos de dúvida é uma ocupação como qualquer outra. os ocupados não morrem. a estética escultural do olfacto é mais importante do que as auto-estradas. por isso, vá a pé na imaginação férrea do silêncio. cheire a paisagem que se absorve lentamente ao fundo e que rasga com ternura a ternura do céu de outono. não ande demasiado. quanto mais andar mais esperança surge. surgir esperança é surgir um espelho, e um espelho é difuso apenas na interioridade. intimidade. é como o poema. o poema que mudou. que se deslocou até aqui porque fez uso das possibilidades, probabilidades, matemáticas e deslumbres que a arte oferece. ontem, quando o visitei, o poema era literatura. hoje é mistificação das bases. e ter um pensamento único, convenhamos, é a fruição da vanguarda. a vanguarda converte porque gera metades de tudo o resto. e tudo o que é metade se perde.

inédito

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Poema

Que nos permitam jardins secretos
Por entre este deserto de sentidos
Pássaros no olhar em meio ao caos

Que possamos respirar o infinito
Em meio a este mar de negrume
Olhos de anjo por entre os chacais

Que sejamos como vento leve
A acariciar o inquieto furacão
Audazes na cegueira eterna


a minha sede impera no turbilhão de um canto
insano e livre
até ao fim.

veleiro de meu último verso
a minha sede liberta a minúcia do mar
tão quieta.

mariagomes
março de 2010

segunda-feira, 29 de março de 2010

POEMINHO DO CONTRA

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mario Quintana

domingo, 28 de março de 2010

alguns pássaros são monogâmicos

Um canto

ao faro sabor,
no relé labor
do manto:

A similar
tentação
do coração
a falar.

Nos desapegos
de apaixonar
-voar o momento-

esquecimento

sempre aproximar
o casal de pregos.

Deixa assim...

Vejo o dianoitecer...
E a neblina que sobe lambendo o ladrilho
e sua trilha cheia de um brilho fugaz...
Vejo gotas de diamantes descendo pelo ralo
Ninguém ouve o que eu falo
e as nuvens brancas de algodão,
felpudas pendendos tornos
em torno de mim, logo irão
me abraçar... e eu suspensa no ar
entre nuvens e plumas e espumas
e algumas idéias... a sonhar...
Quando vou por os pés no chão?
Vejo a noitestrelada acender
outro dia com uma luz mais fria...
E vou me esconder na trincheira
que cheira a almíscar e sândalo e patchouli.
Vou banhar as penas de ganso
com minhas penas, meu ranço de ser
um pedaço edípico sempre a desmerecer
com meu traço típico de psiclichê,
o que a vida me parece ser...
E o tempo segue a pintar as paredes do dia
hora em tons que gritam, hora em pastéis
E seus ponteiros fiéis vão me cutucar
Até eu desistir de esperar tudo mudar.
Deixo a vida me roer porque se eu crescer
Como vou caber em mim?

Aflição


Basquiat

As questões que me trazem não me remetem a nenhum absurdo.
São questões apenas para os gênios que desistiram de amar...
Mas aprendo a conviver com elas e me permito a redemoinhos d’alma.
Sumo...
Fico distante.
Dispersa, para ver melhor.
Apreendo os segredos de tuas rugas.
E, na saudade, cheiro a essência em tuas vestes.
É que isso que chamam de Amor não é lá coisa de ciência.
É coisa simples de se viver com consciência.
E entre o Amor e as questões que me trazem.
Prefiro apenas muda o Sentir.
Porque tuas questões pertencem a ti.
A mim, pertencem as dúvidas que sequer nasceram,
Ou ainda verdes, pedem...
Aguardam o estio ou a tempestade para desabarem todas.
São como frutos de tudo que não respondi.
Das vezes que me calei e de outras que gritei ao infinito.
Essa coisa de quaresma me deixa mesmo em pleno estado de aflição.
E, aflita, viajo a templos que não te são permitidos.
É que essa coisa de Amor não precisa de definição.

Alyne Costa
14/03/09

sexta-feira, 26 de março de 2010

Remocejo



Vinda de qualquer lugar é aquela vontade

Da mocidade de encontrar a si, um mi(m), em (n)dós, quiçá
Dá. Ah, se dá. Virilidade e coragem, um padrão já tão antigo
Puído. Roído como as pernas do cidadão

Foge. Foge não. A vida está à espera de ti pra rolar
Entre as pernas do tempo, embrenhar a idéia
Que vem do intento de tentar, vêm, vêem rolar
Para soldar o tempo que está por trás e detrás do vento
Que aformoseia o rosto da menina, com cabelos revoltos no ar

Te convido pra amar. Se amarrar. Se esforçar
Mulheres, garotos padecem de ti e merecem um sim
precisam do pão que untam seus seios
Meninos, abrigo suas donzelas procuram
carecem do ão que forjas com a mão
Acolham-se, supram o canto que sai do ventre

Agora nós, a frente desse grande palco
Juntos ao final do ato. Pendemos em dizer
"Sim, sim. Foi muito bom viver."
Tivemos a quem ceder e conceder um braço amigo
Um peito cálido e um fardo de emoção
Gorjeios mil, elogios outros e não por poucos
Perdemos a razão e digo: "De nada foi em vão"!

quinta-feira, 25 de março de 2010

haikai felino I


O gato destapa
a areia com a pata
e enterra de forma secreta
o que íntimo, excreta.


(obs : música no link : Europa - com Gato Barbieri)

Amanhã já tem

Enfim, me encontrei pra calar meu silêncio
Me insinuei pra sorte, ir sem par
Pra ver o sol raiar, sozinho, sem estar,
Em paz que o meu amanhã já tem

Noite sim, vento nem, brio que traz
Temporais, redemoinhos ao revés,
Sinais de nada aos meus pés... ficar
Em paz que o meu amanhã já tem



Até fiz de mim um livro que nem quisera ler,
Um segredo mal contado, meio eu, meio você...
Um choro, um veto, um grito, atinar sua razão,
Meia verdade aliviada, coisa que nem fiz questão

Testemunhei minha rotina, bem do alto da varanda
Via meu amor passar, muitas vezes, só lembrança...
Esperei tempo demais um olhar, um brilho, um quê,
__Quando foi que eu perdi a vergonha de viver?



Enfim, me encontrei pra calar meu silêncio
Me insinuei pra sorte, ir sem par
Pra ver o sol raiar, sozinho, sem estar,
Em paz que o meu amanhã já tem.