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terça-feira, 24 de junho de 2014

Oceano



Tudo é efêmero diante do mar
navegadores, sereias, tritões
o encanto dos celacantos
a cor dos corais        

Nada dura diante de suas dunas
grandes impérios, conquistadores
A memória não sabe nadar
sofre de enjoo, é presa fácil
em tempo de tempestade

Só pra nos lembrar
(que tudo é efêmero diante do mar)
o mar  o mar o mar
sobe as encostas
encharcando as nuvens

alterando a geografia do ar

sábado, 24 de maio de 2014

Dois Poemas Um poema



1
Eu digo NÃO!
estar de acordo é acovardar
doença do caráter, falta de decoro:
é preciso ser obstinado em desobedecer

Aceitar tudo, calado
só para os que venderam a alma $
ou esqueceram o cérebro em casa –
levados aos montes pela correnteza
rio acima, rio abaixo
como cardume de peixes adestrados

Eu digo não e reconheço meus inimigos
ao vê-los gritarem SIM!, pelas praças!

2
Eu digo SIM!
Tudo que caminha, caminha para um fim
dos escombros da velha cidade
uma nova cidade
onde o povo ri duas vezes mais alto

As coisas estão aí para serem mudadas
the times they are a-changin

Regresso só para os amantes
que se frustraram
dando com a cara na murada
e os peregrinos exaustos da viagem

Eu digo sim!
e reconheço os meus inimigos

ao vê-los pintarem NÃO!, nas fachadas!

domingo, 24 de novembro de 2013

Comedìa


I - Inferno



Nenhuma pista ou clareira 
para tentar a aterrissagem
e, ademais, 
o trem de pouso emperrado

Retornar ao lar
– oh estações, oh castelos –
e ninguém ter dado pela sua falta


II - Purgatório

A TV ligada para ninguém
– em consultórios ortopédicos –
o cheiro do tédio das atendentes
& o clamor dos telefones

A fila de mulheres pensativas
– nos pronto-socorros –
as crianças tossindo em seus colos
o senhor debruçado sobre as rugas

A ante-sala dos CTI’s
as antecâmaras das policlínicas
os  azulejos brancos, o ventilador de teto
– nas salas de espera dos centros de radiologia –

E nos demais lugares onde a morte fareja


III - Paraíso

Praticamente nada a fazer senão para o pobre agente do Centro de Controle de Pragas. A nuvem de veneno borrifada sobre as macieiras rouba o brilho das asas dos anjos e embaça o aço de suas espadas. De manhã, o batalhão de arcanjos em ordem unida, treinando para a possível batalha. E é sempre manhã, aonde quer que se vá. Longa manhã de profunda ressaca. Os que leram estão de acordo, é o mesmo paraíso descrito por Dante. Um saco! 



*

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Hefesto/Vulcano/


Era um deus, no entanto.
Porém, não o poupavam. “Coxo Coxo
         Coxo”
sussurravam pelas ruas.

Nos inferninhos e na boca do lixo
o consenso era geral:
“feio como um beliscão no cu”
“a própria mãe reconhece a merda que fez”
& demais despautérios.

Entre os seus, em língua grega
– ou naquela que lá se fala
& tampouco compreendemos –
a fama de corno corria aos quatro cantos:

“vencido por um amor de espuma”
“enfeitiçado pelos olhos de cigana oblíqua...”
& coisas do tipo.

Distraído, no cômodo do fundo,
iluminado pelo fogo da fornalha
ele nada ouvia
senão o som do martelo malhando o metal.












quarta-feira, 24 de julho de 2013

PROVEDOR-MOR DE DEFUNTOS E AUSENTES

1. Dinamene! Dinamene!

pouco importa o que move os cardumes
ou o que torna cego os peixes exilados
       nas cavernas

tudo se resume – questão primordial –
no que teria sido se o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço

2. Entre gente remota edificaram

, ou outra língua surgisse da espada & do fogo e nos entrasse pela boca, após ser roubada por algum Prometeu – por exemplo. Falar Falar Falar até que as chagas da garganta cicatrizassem & parassem de doer

, ou outro messias surgisse no lugar desse – ó pai por que me... Também velho & cego, como convém (um olho vazado em Ceuta) (Para que tantos messias, meu deus?) 

ou nenhum messias – e fôssemos mudos como as pedras

3. D. Sebastião

acaso o Mekong tivesse
engolido aquele calhamaço
ou o poeta tivesse sido vencido pelo nado

talvez em um laboratório
ou no canto d’algum pássaro
ou de empréstimo de outro reino
uma nova língua até nós caminhasse
com seu rastro de pólvora e sangue

quem sabe outro poeta se erguesse
– em uma manhã de nevoeiro –
no caso do seu fracasso?





 *

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Do vinagre e seus usos


Eram especialistas em conter
Bastava meia dúzia de cães e seus lacaios
ou um pequeno pelotão de farda
armados com um pouco de ódio
 – que já vem de fábrica –
e um up grade que adquirem na jornada

Tudo se dispersava diante do pelotão
montado sobre ferozes cavalos
polícia e bandido (doutores de terno & gravata)
de mãos dadas para distribuir porrada

e a ordem era mantida para a glória
dos privilegiados (uma certa
    gente diferenciada)

Eis que o rumor da multidão
abafa o som das botas e das bombas
daqueles que pagávamos para nos matar

Ninguém recua até que o sol venha iluminar
      as vidraças            q u e b r a d a s



*

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Lançamentos

Amigos, dia 28 de Maio estarei lançamento meu novo livro de poemas, Elefante. No mesmo Bat Canal, lançaremos a coletânea Fórceps: são 4 poetas: Eu, Cássio Amaral, Heleno Álvares e Flávio Offer. Se der, compareçam! Abraços!


domingo, 24 de março de 2013

Ars poetica


Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Drummond

por certo não sou digno da poesia
é o que se comenta
nos pequenos círculos

não comi a flor de lótus
tampouco sai às ruas chapado de rivotril

também disso estou certo
– eles o dizem, por que duvidar –
não evitei o amor
 essa grande balela

sequer morri de tuberculose
(nos corredores de uma sinistra biblioteca)

é o que se comenta
quem sou eu para duvidar

não me matei (ou matei alguém)
pelas palavras – ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa, etc e tal –
muito menos tive a Grande Visão

não vendi armas ao rei da Abissínia
ou cruzei o país
– vagabundo em um vagão –
no encalço do Sublime


.