domingo, 30 de maio de 2010

Um poema de amor

todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.
suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-maridos.

principalmenteas mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas, não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar – eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. Sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

Algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem. Outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todos têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e acarência me
sustentaram, me
sustentaram.



Charles Bukowski

tradução: Jorge Wanderley

sábado, 29 de maio de 2010

Acalanto




Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.


Paulo Henriques Britto

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Estimados

Bem aventurados os que se vendem, pois os que se dão não têm valor.
Bem aventurados os obstaculizadores, pois fortalecem a vontade frágil.
Bem aventurados os de má vontade para com seus semelhantes, pois os disponíveis costumam ser intrusivos e sempre lançam em rosto seus sacrifícios.
Bem aventurados os egoístas, pois nos ensinam que nada devemos esperar receber graciosamente.
Bem aventurados os que dizem não.
Bem aventurados os que se calam.
Bem aventurados os que vivem suas próprias vidas e lutam suas próprias lutas e gozam seus prazeres, pois são bem menos prejudiciais à humanidade do que os bisbilhoteiros, os exploradores e os reprimidos masoquistas.
Bem aventurados os pessimistas, pois não vendem, nem compram ilusões baratas.
Bem aventurados os que, em vez de buscar sentido para a vida, lhe atribuem os significados necessários.
Bem aventurados os que sobrevivem ao fracasso, mas não vivem dele.

duetto

Campo Grande, maio de 2010.
28.05.10
para as noites que não virão
faço poemas descartados
e da nostalgia esqueço

Haiku de Outono

Casca rachada
ipê amarelado
e o frio lunático.

in S A P O I E mar/abr/mai


quinta-feira, 27 de maio de 2010

Somente Tua Alma Foi Dilacerada



Somente tua alma foi dilacerada.
Pouco importa tuas contas dadas.
Regras, leis, CLTs, anúncios de jornal...
És sempre o culpado. Há os que amem os poetas anônimos, os que se rasgam e não se entregam...
Há também aqueles que só te consideram enquanto poetas íntegros: que se dilaceram...
Há os que esperam suas vestes rasgadas,
Suas noites insones...
Seus versos dobrados sob o papel.
Aí, eis poeta!
Com chances, passaportes, canudos...
Flores, belas vestes, escudos...
Das suas dores ninguém quer saber, poeta!
Ela e sua e só a ti pertence!

O apogeu de todo mal.
Que importa o que importa se não pagastes a conta?
O sanatório?
A exoneração?
A aposentadoria por invalidez?
Não pagastes a mensalidade da filha da filosofia....
A mãe de tua agonia.
E agora poeta?
Para que comprastes brigas?
Para ouvir a lei mais rica de quem se corrompe ao mal?
Vai, poeta, cala-te, agora....
Paga tua conta e vai embora....
Entender e a veia matriz do maior mal.
E já que não tens dinheiro, vendas canções de fevereiro.
Massagens embaixo do chuveiro.
Faz propaganda enganosa.
Vai poeta, feito em riso e prosa.
Esquece as lágrimas vãs...
Vá aos bréus do coachar das rãs...
Finges que ris e coachas, a dor do que não foi par perfeito.
Chora pelo que lhe é de direito.
Grilha feito grilo, coacha feito rã...
Vai poeta timoneiro, acende na tocha uma nova manhã...
Paga a conta e some do mapa....
Esquece setas e rumos....
Segue amanhã que amanhece e o sol que, de graça, aquece....
Teu poema não requer timoneiro...
Seu verbo não tem tesoureiro...
Paga, poeta a última taça.
Arregaça a manga e ameaça.
Abraça a vida como sua.

Alyne Costa
Maio de 2010

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Um soninho



As vezes em meio ao montinho de cobertor sinto frio.
Sem mais nem menos, um arrepio pela minha pele caminha.
Sinto medo, um medo de não voltar,
um medo de não ter mais o brincar.
E o frio continua.
Com sua espreita sombria.
Sobre mim assobia.
Sinto esvair de mim a esperança e
a vela entra na dança:
Sombra, luz, sombra, luz, sobra sombra, falta luz.
Como crescer perdendo o medo do escuro?
Como crescer e não temer mais o desconhecido,
para que aquele conhecido, vire um amigo?
Eu poderia dizer se da cama pudesse descer,
mas o cobertor me protege, me acolhe, me acalma.
Eu poderia ser como os heróis, mas por que quando choro todos eles se vão?
Mais uma vez o frio. Abusa da minha companhia, urra da minha apatia.
Eu o esqueço, fingo que o esqueço, apenas espero.
Logo o sono vira meu amigo, logo os sonhos serão meu abrigo.
Mas o frio ainda estará lá amanhã.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Talvez

Talvez você nem saiba
Que quando você passa
A rua inteirinha se faz acordar
A rua inteirinha te anuncia

Talvez você se esqueça
Que caso eu mereça
A vila inteirinha vai conspirar
A vila inteirinha te assedia

Talvez você me entenda
Quando eu criar a cena
Que a cidade inteirinha vai elogiar
Que a cidade inteirinha me veja

Construí uma avenida
Com palavras e aquarela
Coloquei seu nome nela
E fechei com fino estar

Usei cubismo em duotone
Com paletas de egoísmo
Foi aquém do que eu preciso
Pra só eu te ver passar.

Acaso




Maria vinha de carro
Maria vinha de "a pé"
Maria vinha de barro
Maria vinha José

José tinha um sarro
José tinha sua fé
José tinha pigarro
José tinha rapé

Maria queria jarro
Maria queria café
Maria queria cigarro
Maria queria ter fé

José queria Maria
Maria queria José
José queria um dia
Maria queria, pois é


(ilustração : "Pavão Misterioso" - Gilvan Samico)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

____* queda



Eu te amei!
As pedras do paleolítico
bem previam...

Mas nossa primitividade
virou poeira em frágil edificação
e, das cinzas, nenhuma Fênix
ressurgiu.




Legenda para filme de Sergei Eisenstein

foto de rafael nolli

O poema tem que ser ácido,
não por mim,
mas por Sacco & Vanzetti –
sentados em cadeiras onde serão eletrocutados.

O poema tem que ser ferino,
não por mim,
mas pelo Líbano novamente bombardeado –
e que será bombardeado até que os telejornais
se cansem de noticiar a desgraça dessa guerra.

(Que o verso noticie as crianças confusas,
as bibliotecas cheias de poesia,
as mulheres agarradas às barbas de Maomé,
os cedros cantados pelo profeta Ezequiel –
todos excluídos das estatísticas,
pois suas mortes foram desprezadas
por não venderem jornais
e atrapalhar o comércio bélico.)

O poema tem que ver além do seu próprio umbigo,
não por mim,
que muito sei do meu umbigo,
mas por todos aqueles que amanhã
acordarão desesperados –
eu e meu umbigo entre eles.

O poema tem que ser denunciante,
não por mim,
mas por Ruanda
que na Noite dos Facões
perdeu um milhão de seus filhos
para uma fábula belga
sem príncipe encantado ou final feliz.

(Que no poema escorra o sangue dessa gente
que ainda ontem estava viva,
donas de suas mãos e
cabeças decepadas pelos vizinhos,
onde buscavam o sal
que faltava para colorir as suas mesas escassas.)

O poema tem que ser visionário,
não por mim,
que mal posso ver além das brumas do agora,
mas por todos aqueles que mesmo vendados continuam
sem dosar os passos no campo minado das cidades.

(Que o poeta saiba cantá-los
sem se esquecer dos
crimes diários que a sociedade obriga-os a cometer
[Bakunin sorri nessa estrofe!])

O poema tem que ser dos homens,
respirar o mesmo ar que eles,
chorar os mesmos mortos,
estar ombro a ombro nas filas dos hospitais
ou nas trincheiras do desemprego,

não por mim, poeta, não por mim.



*

domingo, 23 de maio de 2010

Coisa de ninguém



a poesia
não é minha filha:
não me vem do útero
bacia
e virilha

a poesia
não é minha arte:
não me vem do estudo
bibliografia
e encarte

a poesia não me vem
a poesia não é minha


Renata de Aragão Lopes

Poema publicado em 3 de maio no doce de lira.




Profissão de infidelidade

Eu sei por onde erro. Ou não.
Porque não creio nas verdades prontas
Eu sei por onde acerto. Ou não
Porque não posso com as mentiras tontas
Eu sei o que me cobro. Ou não.
Porque nem sempre tenho a paga esperta
Eu sei o que eu escolho. Ou não.
Porque não quero mais ser sócio atleta
Eu sei o que discuto. Ou não.
Porque de perto sei que não estou certa
Eu sei o que proponho. Ou não
Porque sou arco tanto quanto seta
Eu sei de que preciso. Ou não.
Porque meu coração nem sempre acerta
Eu sei o que eu escuto. Ou não
Porque o que dizem todos não me afeta.
Eu sei o que pretendo. Ou não.
Porque atrasada é outra a descoberta
Sei que sou incompleta sim
Mas eu prefiro
Do que pensar que eu estou sempre certa
Não acredito em nada, não pretendo
Dar lições a ninguém, não quero aulas
Quero ser infinita enquanto dure
Quero ser uma dúvida perene
Quero a complexa palma
Quero ser toda alma
Inquieta e calma

sábado, 22 de maio de 2010

PAISAGEM


A lua quase cheia...
Eu, na varanda,
outra vez sem sono.

A lua quase cheia...
Debussy na vitrola
Clair de Lune...

Outra vez o Dona Marta multilight
pisca mais do que piscam
as luzezinhas das árvores de Natais

E outra vez
na varanda,
delineio os montes
finjo desenhar
rabiscando os morros
colorindo as luzes.

luz branca
verde-amarela
(gol do Brasil!!)

Bandeirinhas que adivinho
dançarem ao vento,
bailarinas plásticas.

E o Cristo
amarelo fogo...
a lua acima dele
um pedaço quebrado de strass.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Em branco

Há momentos em que me sinto
como folha em branco,
uma página vazia,
o silêncio retumbando dentro do meu ser,
amplo e pequenino ao mesmo tempo.

Há dias em que me sinto num brete,
encurralada para a tosquia do que preciso me desfazer,
como rês a ser abatida para alimentar
os famintos e os insaciáveis.

Eu me pergunto como teria sido
se os rumos fossem outros
e as escolhas, diferentes.

Nada pode ser mudado no ontem.
No máximo o agora pode ser refeito
Para que o futuro não seja
Como o hoje está.

Vera Pinheiro

quinta-feira, 20 de maio de 2010

oiticica

não há para onde voltar
fora da memória cativa
dos delírios

aberta as chagas
os pregos cravados
no espírito

o cheiro do caminho das moças
o vento batendo
na clitoria racemosa

Eu te amo duas vezes mais.

Se tornar princesa pela primeira vez
tem o frio da instabilidade

E pede uma promessa de amor parcelada
na esperança de reservar um futuro

Mesmo que o amor
ainda não tenha, de fato, se apresentado

O costume é morno
no discurso

As mesmas respostas de amor
Não intimidam
Não surpreendem
Viciam
Confortam

- Te amo.
- Eu também.

Quanto de amor
existe em frases como essa?

O amor repetido
tem duas vezes mais amor

O dobro daquele prometido
no ápice da precipitação.


Julia Duarte.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Menino e o sino


Um beato murmureja
uma Ave Maria!
Um menino boceja
pensando em Mariazinha!

A igreja vazia
é convite para brincar
com o sino.

O menino corre vadio
para a torre da igreja.
A passarada em alvoroço
voa lá de cima.

E o sino grita alto,
Eis um menino peralta
"Blém, belém, blém, blém..."

Nervoso, o sacristão
corre e vem dizendo:
"Chispa, menino matreiro,
filho de garrucheiro,
seu moleque atrevido!
Quem disse que podias tocar o sino?"

E o menino corre sorrindo,
feliz da vida,
feliz pelo sonho realizado!

terça-feira, 18 de maio de 2010

Minha Alma Livre

Observe minha alma.
Ela é livre, pura
solta e as vezes obscura.
Tente entendê-la
por mais que não possa vê-la...
por mai que não possa tê-la...
Ela não é de ninguém...
nem foi... nem vai...
E a cada noite que cai
ele se renova,
e prova
o quanto voa por aí.
Entende,
cada vez que se surpreendes
com sua nova direção,
muitas vezes na contramão,
é que ela quer dar o sinal,
que voar não faz mal, enfim,
nem para você,
nem para mim.
Observe... observe e sorria,
milha alma tem carta de alforria,
desde que a noite vadia,
se deitou com o novo dia.
Aproveita,
pois quando minha alma se deita,
ai ao lado tua,
é porque a lua,
ainda não me chamou lá fora,
e antes que chegue a hora,
me beije com muita vida,
porque minha alma esquecida,
vai se deslumbrar com a partida,
e pode ser que nunca mais,
queira olhar para trás.
Vai, me beija com ternura,
pois hoje minha alma ainda é pura...
e somente tua!

segunda-feira, 17 de maio de 2010

imagem: delrei.wordpress.com


O que me irrita
é essa obrigação de ser feliz.

É essa pretensão de sempre vermos cores em tudo,

de apreciarmos os amanheceres,
de nos encantarmos com cantos,
de nos divertirmos com crianças pelas ruas,
de pularmos carnaval,
de acharmos singela a ignorância alheia.

O que me irrita
é essa indecência que é assumir frustrações.

É essa incapacidade de nos assumirmos limitados.
Essa alegria toda, por conveniência.
Essa baboseira em que nos tornamos.

O que me irrita
é essa futilidade em que se tornou
o ato de sentir.

longe é um lugar que ainda existe



a habitual e inevitável discrepância
do tempo-espaço presumido como quântico
assim sentido assim vivido como dogma
imiscuindo às equações do dia-a-dia
cotidiana e virtual geografia
(e onde encontrar perfeita rima para dogma?)
que se desliza ardente e doce como cântico
e faz o aqui sentir-se ali sem mais distância
até que um dia faz-se urgente e essencial
estar-se perto — e a emoção rompe a cortina
mas há o espaço e há o tempo de permeio
(newtoniano e pragmático floreio)
e a teia quântica esgarçada se arruína
na inevitável discrepância habitual



Márcia Maia


domingo, 16 de maio de 2010

VOLTA

Quando se encaixa a cabeça,

aperta o peito,

se acendem os olhos.

Se vejo a fonte,

vou em frente.

embora se conte

que é suja a água

e se apaga a mente.

Se sento,

escrevo,

não falo.

Gravo os momentos,

das horas que calo.

Se me ouves,

falo.

Se corres,

grito.

Se morres,

não fico.

sábado, 15 de maio de 2010

Outro!

Escrevo na quietude do quartinho, a barriga protuberante, os pelos pubianos eriçados e o pênis entocado feito um filhotinho doente. Qual a utilidade de deitar palavras, senão pelo desejo incompreensível de ser lido? É isso que realmente almejo, ser lido? E sendo lido, o que espero do outro? Que se emocione, que me tenha no mais alto conceito, que queira ser eu? Talvez acredite piamente que, no instante em que sou lido, estou abrindo a porta de casa para quem quiser me ver desonrado, destituído de dignidade humana, nos moldes: quer me humilhar abre logo a porta do banheiro quando eu estiver cagando. E no percurso da leitura, essa pessoa estará sentada ao meu lado, presenciando o fluxo mental de um homem perecível, contemplando sem julgamentos a nudez relaxada dum homem mofado.

Observo conhecidos que transitam pela cidade, convivendo em bares, em teatros, em lotações. Engajados em algum projeto pessoal ou coletivo, inscritos em cursos de verão ou academias de ginástica, todos muito mais felizes que eu. E isso me parece ridículo! Me recuso a adotar um estado de espírito que seja circunstancial! No entanto, escrevo estórias. Mais que isso: preciso que sejam lidas. Há! Existe algum elemento químico, bio-lógico, por trás disso, uma lacuna fisiológica na compreensão de arte: ela deveria ser foco de estudo de cientistas, não de artistas. A arte é um caso clínico.

Cada vez que me privo do contato humano, mais personagens e mais diálogos crio no papel. Será que teremos que conviver, de um jeito ou de outro?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

romantique

[valéria tarelho]

L'individu bien conforme est taillé d'un bois à la fois dur, tendre et parfumé
Nietzsche

seu cheiro
- choque -
: rasgo de ar puro
no meu sufoco
viciado

seu cheiro
- chique -
: eau de homem
[poésie poison passion]
bouquet urbano
no meu ranço flor do campo

seu cheiro
- xis -
: agente noir
infiltrado
na curva [alva]
do meu anseio

seu cheiro
lance certeiro
: estratégia
movimento
ataque

seu cheiro
: argumento
ou fato

xeque-mate-me

Engenharia do Incerto


Nasce a incerteza pós-parâmetro
no paralelismo da irregularidade
O instante escondido entre intervalos
Enigma rígido da realidade

Improvável é mensurar a natureza
Nosso limite é o vazio...
Em frente à imensidão azul do mar
sou como a formiga que no pão dormiu !

E se retas paralelas se cruzarem no infinito?
Cem por cento é margem de erro
No caixão da ciência ecoa um grito
Entre o piso acabado e o inferno
a interrogação é o aterro !

quarta-feira, 12 de maio de 2010

*
*
*
*
Fado
*
*

A mais de 7 palmos
esculpiu uma guirlanda
na hora do besouro
----------------e na cova do besouro
----------------deixou semente de angelim
*
*
E foi naquele labirinto
sufocante e cingido

----------------( não obstante certos mareios
----------------de umidade ilusória )
que brotou uma árvore
já com um pássaro pousado
um balanço de cordas
uma filha sentada
----------------e tudo
e as gargalhadas da menina
deram ao mundo sua canção
*
*
Dedica-se
agora
a rir e a empurrar a criança
em seu destino de nuvem
*
mas, resoluto
----------------o inseto
escarafuncha a galeria por dentro
*
e esse eterno revirar
já rendeu
uma perfuração de úlcera
alguns chiliques
----------------e aquele ar

----------------de quem um dia
----------------pisou na merda
*

terça-feira, 11 de maio de 2010

Patriarca quebradiço

Me despeço consumiço
sorrateiro e rato
do patriarca quebradiço
com quem andei pimenta na primeira pedra de montanha
trilhei o derrapo da voçoroca
e dormi com ganso quando montei cabana
.
A ponta da sua pá que dobra
Fez barreira pra desalagar a chuva
Quebra noz de madeira
Ladeira paulistana de rolimã
Férias da manhã com mel
Palmeira de terra oca, maná
Tacho culto a sopapo, zinabre
.
Cachorro na bancada faz sermão de creolina
Foto bonita quadro e cuco
Ética de prataria
Gato machucado comendo tinta preta da oficina
.
Que me deu carro fusca
e bicicleta grande
Me ensinou responder fruta
de garfo e faca no calar de barra
Calor de tarde na calçada
da cidade velha
agradando a vizinhança velha
no portão de volante do velho
.
meu avô

.

Sorocaba/Rio, novembro de 2009/fevereiro de 2010

segunda-feira, 10 de maio de 2010

haikai

haikai de Paulo Leminski,
imagem de João Suplicy
(extraído do livro-arte winterverno, São Paulo: iluminuras, 2001)

ESPELHO




ESPELHO

Bem distante bem distante
No traço do arco íris
a íris da menina
Que ainda espelha tua cara
Esses olhos
em cores, muitas cores

Bem distante bem distante
Lá adiante eu posso
Rodeando a flor de pedra
Galgando entre os espinhos
Ir ao topo do sol ardente
explodindo crisálida
desse amor que não deu em nada
mas foi por tua cara
que arrebentou meu coração
fragmentos de espelho
e esse teu corpo tão distante
bem distante, bem distante
despedaçou-se
Em toda a minha lágrima
Lágrima...



Cíntia Thomé
2010




Imagem Greg V. apartamento-cobertura/Sampa



um haicai

Fim de outono
Árvore de uma flor
No canteiro central

domingo, 9 de maio de 2010

dessas noites em que estava lavando pratos

estudo de mulher/ rafael godoy

o detergente faz espuma na pia
os pratos ficando limpos no escorredor
os pensamentos sujos quero um cigarro
uma música um blues o céu escuro
meus gatos escondidos em silêncio

duas taças de vinho quase cheias
os pés no chão e pálidos
uma janela uma luz acesa do outro lado


as garrafas de vinho abertas e vazias
leio os rótulos e penso num poema
um inseto esquisito vindo de outro lugar
voa em torno das garrafas vai até a luz e volta
o tempo não tem pressa meus olhos o seguem

os pratos vão ficando limpos
as panelas ficam pra depois

pego uma taça e dou um gole
acompanho o blues num inglês ruim

o inseto se vai e bebo mais
olho a noite escura os pratos brancos
alguém me espera no sofá

"estranho pensar no abandono de toda ambição"

sábado, 8 de maio de 2010

da alma à carne

ontem
comi palavras, meu bem
por isto, simplesmente, estou sem palavras
silenciado em silêncio cristalino
nada escrevo, nada digo
apenas compartilho meus xis xis xis, várias vezes...

hoje
quero cometer o pecado da gula, novamente
quero me lambuzar todinho de você
quero, até lamber os beiços
quero rapar o tacho
ah!!!..., inenarrável prazer.

vou
na iluminessência do agora
sorrir, como sorri seu corpo junto ao meu
sorrir, como sorri meu eu juntinho ao seu.

sempre, sempre, sorrir, seguir
muitas vezes e mais outras
sorrir, com seu sorriso escancarado, minha querida
seguir, com seu sorriso cravado em minhas bocas.

Delirio Esquisitos-Somático Viru...L e n t o


Uma parasita
tão fria quanto a pedra em que se entranha,
sacia-se no gado parvo,
inalterável e exíguo.

Mas eu, mamífera,
doce-fera,
perco energia em forma de calor
me refazer, quem dera!,
não consigo

e quanto mais esqueço
de ser como ela
(sugar sem dar de verdade em troca)
mais degrado minhas forças
vou ao chão.

Depois que me for, lembre-se:
adapte-se,
as pestes, lombrigas e baratas
nunca entram em extinção.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

poema erotik


desenho texto e foto do desenho : isaias de faria


FAZER DE SUA BOCETA UMA LARANJA,
CHUPA-LA, DOCE, NESTA MANHÃ
CHUVOSA E CLARA.
SUA PELE, DA COR DO DIA, SUA BOCA
PIMENTA.
MAS SE FOI LOGO.

EU, OLHOS BAIXOS O RESTO DA SEMANA.

quadras de morte e vida

e do meio para o fim
começamos a cuidar da morte
pois aprendemos cedo a temer a vida:
uma taça que se quebra.

se nenhum cristal fino
muda a qualidade do vinho
qual será a hora, Clarice
de brindarmos à mudança?

por mais tempo de esperança
onde e quando reencontraremos
aquele ser diáfano
que não queríamos perdido?

insisto no infinitivo
gerundiando o passado
e apesar do verbo ser presente
toda a história se repete.

toda palavra se engasga
na originalidade.
não há sintaxe que não seja mórbida
quando plagia a realidade.

nada do que se diz vale então a pena
que extirpada da ave
escreve sobre asas, voos
liberdade

(quem consegue ser livre, Clarice?)

somos eternos prisioneiros do mundo que tentamos mudar
só pra sentir que na vida se viveu
e do fim para o começo
mediamos a morte.

quinta-feira, 6 de maio de 2010



Dedicatória
ROGERIO SANTOS
(Para Arlete Ramos)

vou deixar dedicatória
uma palavrinha qualquer
uma tirada engraçadinha
de alegrar seu coração

numa frase bem bolada
que te pegue de surpresa
e arrebate um sorriso
de tenra e terna beleza

original dedicatória
rabiscada em lembrancinha
um mimo bem verdadeiro
como um bom sol na manhã

que a vida só vale por isso
no meio de tanta loucura
de tanta procura sem foco
tecer um poema e um sorriso

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Pérola que Habita o Céu!


Comovido com os olhares de sofrimento de Benjamin Junior: filho que chorou à beça a perda prematura de um grande amigo de sonhos - o seu sofrimento entristeceu-me muito -, resolvi resgatar e publicar o poema abaixo, anteriomente dedicado um outro jovem (Rudy, cria de Cintia, minha grande amiga) que também nos deixou na flor da juventude.

“O amigo é a resposta aos teus desejos. Mas não o procures para matar o tempo! Procura-o sempre para as horas vivas. Porque ele deve preencher a tua necessidade, mas não o teu vazio”.  

(Em Memória de Victor Barros Maneschy)

Responda-nos Victor
onde quer que você esteja...

Será
que se alguém te dissesse (antes da partida)
que o barco era sem velas,
que a noite era fria no vão das janelas irremovíveis,
o rio difuso,
a noite morta
e a porta sem uso,
será que assim mesmo Victor
por-te-ias a fugir apressado da aurora
sem (antes) ouvir o lamento dos vindouros
70 anos de ti?

Responda-nos Victor
onde quer que você esteja...

Será
que se alguém te falasse (antes do arranque)
que a estrada era sem sinais luminosos,
que o ponto de partida era lotado,
que o chão de pétalas era negrejado,
a viagem confusa,
o entreolhar espantado
e a cerimônia restrita,
será que assim mesmo Victor
por-te-ias a completar a órbita do nunca
sem (antes) olhar a espaçonave que te guia
desdizendo dos que (desde já saudosos...)
ainda te têm?

Responda-nos Victor
onde quer que você esteja...

Revela-nos o irrevelável

Benny Franklin
OBRIGAÇÃO

abriga a acção
o que a ela nos obriga
para ela assim nos trazendo

todo o verso que se presa
é feito por devoção

mas, nenhum devoto tem voto...
Assim

OBRIGADÃO

fazes do simples
esta sensação do poder
tocar ao ler-te assim

a ponto de também eu
libertar as palavras

chamando versos ao sentir
Mim

+

... MULA!

nada me obriga
a abrigar na obrigação
mas, tiro-lhe aqui o chapéu....

sem ela não haveria
significado para a possuir

possuir quem nos estimula!
R

Um duo e três, sem começar acabando: era uma vez...

terça-feira, 4 de maio de 2010

Poema longo...

vamos dormir que já é tarde demais pra nós dois
vamos sair que se não eu sei que vamos deixar pra depois
vamos voltar cedo porque de madrugada tem o medo e amanhã tem

feijão
com arroz

vamos dormir
de meias e barriga cheia
daquele sol gordo e amarelo
que se pôs.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Útero - poema de Sylvia Beirute
















ÚTERO

procurando a tua cabeça: quero acordar-te, devolver-te
ao meu útero, teu colar planetário,
fazer-te regressar ao sangue de olhos fechados e incubadoras,
soterrar o teu nome no meu nome, o teu movimento
no meu santuário faminto,
a minha culpa e aguaceiros no teu desejo indeciso de
beleza e desvios. dar-me-ás o teu azul
para que o meu vermelho denso o golpeie de ocupação e pele,
para que duas solidões
se aconcheguem e tornem uma só. e depois, mais tarde,
numa meia-noite de existência avulsa, dentro de mim
dirás o sexo, o sexo
como arredores de um lugar belo.

inédito

a estrada para morrer sozinho

na estrada para morrer sozinho
quase nunca chove
neva às vezes
o vento pode falar em línguas
e se acharmos a freqüência certa
podemos ouvir os deuses mortos
cantando pontos e louvores

a estrada para morrer sozinho
exige que suas mãos gostem do ar
do vácuo e do vazio
construída em terras devolutas
e pavimentada com as almas
das meninas dos olhos de tanta gente
deixe seus olhos em um altar vago
para repousar

a estrada para morrer sozinho
não é playground ou tem parquinho
crianças que morrem sozinhas
nossa senhora vem buscar em uma barquinha
vão pelo mar
muito pouco a reviver e se penitenciar
depois voltam e viram adultos
para também jornadearem
serem andarilhas
no vale de lagrimas que é
a estrada para morrer sozinho

a estrada para morrer sozinho
é a mais bela
e a menos solitária de todas
flores sem perfume cercam meu rumo
me sinto de toda parte
Colombo de tantas Américas

à medida que avanço
desaparecem as encruzilhadas
para que até Hamlet viaje tranqüilo
na promessa da volta de Ofélia
não tenho lembrança de quantas vezes
passei aqui
e no meu mapa
Damasco e a estrada dos tijolos amarelos
são vias secundárias
da estrada para morrer sozinho

domingo, 2 de maio de 2010

Com licença....

 
Não se mate...

Fatima, sossegue, isto é o amor.
Hoje escanteio
amanhã beijo roubado
sábado e domingo é solidão
 e segunda feira dia de ir pro trabalho.

Nunca resisti ao amor
e nem tampouco ao suicidio.
Mas não vou me matar,oh não vou!
Reservo-me para mim mesma
e renuncio às bodas
sejam elas quais forem.

O amor, Fatima, o que é o amor?

A noite me invadiu e a manhã
me pegou sentada, desamparada
inventando uma oração
sublimando a ressaca
sem vitrolas e anúncios
rezando pra São Carlos
que me dê inspiração
nem sei pra quê
...
Entretanto aqui estou eu
sentinela e renitente.
Sem ser palmeira, sigo orquidea.
Sempre preferi as flores às arvores de folhas bobas.
Não sou grito, minha timidez não deixa.
O amor no escuro ou no claro
é o que quero
E se ele for triste não me importo
já me acostumei com este embaraço.

Quando falo bem

o amor
é o que eu digo quando me perguntam
- como tá a moça?

vai virando isso
e é do que eu vou me convencendo
porque vai se criando

quando falo bem
amo mais
amo menos quando digo que tô cansado

sinto que sou sincero todas as vezes
mesmo que eu fale um hoje, outro amanhã

é isso que eu explico, o amor,
quando me perguntam
- como tá a moça?

sábado, 1 de maio de 2010

tenho nas mãos bocados de qualquer coisa aparente
direi apenas o impenitente que projecta formas acossadas
pela sombra das aves e das águas.

eu procuro milagres!

mariagomes

3agosto.2006, 15 h.

Poema

É quase maio
E meus dias se esparramam
Repletos de um gosto de sal
Semeados de pássaros

É quase maio
E o amor se entorta em mim
Como cavalo guernica
Rabisco traçado em tela

É quase maio
E tua boca de rosas
Exala silêncio